sexta-feira, 17 de junho de 2011

Diário de uma Imortal – Capítulo 17

Velho conhecido
Já estávamos no meio da semana, quarta-feira. Na mesma rotina infernal de sempre.
Elizza, no final de semana, havia ido embora no domingo pela tarde. Fred quando retornou de sua caçada, conseguiu se controlar quando sangue não jorrava da perna dela.
Segunda-feira foi um dia lento e chato, como toda segunda deve ser. Terça-feira eu fiquei até tarde na escola novamente, pois meu grupo de formatura recebeu algumas encomendas.
Só em pensar no quanto trabalho ainda nos aguarda, estranhas náuseas passam por minha cabeça. E tudo para menos de dois meses.
O dia de hoje na escola foi como toda quarta-feira é. Ridiculamente chata. Havíamos chegado da escola fazia pouco tempo, e a tarde na casa dos Cullen estava tumultuada.
Esme havia acabado de sair para visitar o Museu de Arte de Bellevue, no subúrbio de Seattle. Carlisle estava no hospital e meus outros irmãos com os lobos aproveitaram a tarde livre e nublada para irem, pela milésima vez, na torre Space Needle, no centro da cidade.
Leah, Seth e Embry estenderam sua estadia para mais duas semanas aqui. Sam falou que tudo estava em ordem em La Push, portanto o bando de Jacob poderia ficar.
Tudo bem. A casa está abarrotada de gente com Fred morando aqui, e mais três lobos gigantes não farão nenhuma diferença…
Na casa agora só havia eu, Emm, e Fred. Os únicos trancafiados nessa tarde monótona e altamente úmida. Ele nos olhava como que “Se vocês quiserem subir para o quarto, e então fazer o que desejarem, pode ir. Eu não vou tentar escutar e não preciso de babás. Não fugirei para caçar alguns humanos”.
-Por que vocês não foram com eles?  -a voz grave de Fred inundou a sala, um tanto constrangida e impaciente. –Eu daria praticamente tudo para ser controlado e poder sair para visitar a cidade.
-É porque já vimos tudo isso, estamos enjoados de sair para ver as mesmas coisas. –Emm respondeu distraído. -Se meus irmãos tivessem ido até a baía de Elliott, até poderíamos pensar, mas a torre de novo? E é que, er…  –Emmett se interrompeu no final da frase.
“É que queríamos ficar em privacidade TOTAL, algo muito raro por aqui. Mas esquecemos que você não poderia sair com eles.” – pensei no que meu marido iria falar. Mas Fred não tem culpa quanto a nossa falta de privacidade, e muito menos pelo dom incômodo de Alice. E também eu e Emm entendíamos que sair em plena cidade ainda era um pouco difícil para ele.
-Sabe, se vocês quiserem… –Fred segurou uma risada nervosa. -Eu posso dar um volta na colina lá atrás. A neve já sumiu, e eu nunca fui nela sem neve. Juro que não irei fugir para a cidade e exterminar humanos. O máximo que farei é pegar alguns animais do bosque aqui atrás mesmo.   –ele disse apontando a mão para as janelas de vidro, que mostravam a mata que cercava nossa casa quintal á fora.
Essa casa em Seattle é maior que a de Forks. Mas também é afastada da cidade em si, como a outra era. Mas esta era mais bonita, uma combinação de madeira e vidros perfeita. Seus dois andares e garagem para em média dez carros, fora as varandas e a área do quintal, faziam dela luxuosa e aconchegante. Completamente digna de Esme.
-Confiem em mim. –Fred continuou. Fiquei com dó dele. Ele deveria estar tão louco para sair de casa quanto eu e Emm queríamos alguma privacidade. E tão louco para não escutar tudo, que queria passear no bosque. –Eu sei que vocês querem ter um pouco de privacidade. E com Edward e Alice é bem difícil. –ele continuou tentando.
Emmett me olhou especulativo, obviamente querendo mandar Fred ir passear. Meu mais novo irmão riu.
-Não precisa fazer isso, Fred. –eu disse carinhosa. -Emm e eu estamos acostumados com a intromissão dos outros. E relaxe, você não irá escutar nada que não queira por agora. Fique aqui e arrume algo para fazer. A não ser que realmente queira andar pela colina, e não só por nossa causa. Eu e Emmett ficaremos quietos.
Meu marido fechou a cara para mim e fez biquinho, decepcionado com a resposta negativa quanto nosso momento no quarto. Eu mostrei a língua para ele e fui tocar piano.
Não iria tirar Fred de casa só para eu e Emmett fazermos uma bagunça no quarto. E eu não queria que Fred saísse sem todos por perto, por mais enojado que ele estivesse de ficar trancafiado aqui. Eu e Emm não faríamos nada, e Fred continuaria numa boa. Problema resolvido.
Toda tarde sem deveres de casa e sem irmãos ou lobos passou rapidamente. Eu fiquei enfurnada no piano, enquanto Emmett resolveu jogar Guitar Hero com Fred. Pelo menos arrumamos uma distração em que ninguém precisava se retirar da casa.
-Que barulhada infernal é essa?  -a voz de Jasper ecoou na sala em que Emm, Fred e eu estávamos ocupados. Edward entrou sorrindo, seguidos pelos outros. Finalmente eles chegaram.
Parei de tocar minha música e os fitei. Estavam alegres e trouxeram várias compras. Claro que Alice os obrigaria a passar no shopping. Os lobos carregavam milhares de sacolas.
-Não destruíram a casa, não é?  -Esme indagou, tapando os ouvidos com o som estridente da guitarra dos garotos. Ela deveria ter se encontrado com meus irmãos no centro da cidade.
-Não, mãe. –respondi. –Jazz, a barulhada infernal era a mistura de música Erudita com Rock.
-Vocês vão quebrar os vidros da casa.  –Alice sorriu com em média dez sacolas de compras nas mãos. Ela era a mais feliz de todas.
-Então iríamos quebrar a casa inteira, já que praticamente tudo aqui é de vidro.  –Emm disse sarcástico e parou de jogar, assim como Fred. O silêncio penetrou nossos ouvidos.
Alice tirou duas sacolas de suas mãos e me entregou.
-Não me esqueci de vocês, só porque não vieram conosco. Viu como eu te amo?  -ela disse enquanto eu abri os presentes. Alice entregou uma sacola para Emm e outra para Fred, então pegou mais algumas sacolas dos braços dos lobos. Meu Deus, quanta coisa.
Um de meus presentes era uma calça jeans que deveria ter custado mais de trezentos dólares, e obviamente, era perfeita. O outro era um perfume francês, que não sei onde ela comprou e muito menos o preço.
-Nem queira saber, Rose.  –Edward avisou. Sorri satisfeita e abracei Alice, agradecendo-a pelo mimo. Emm e Fred também agradeceram ela pelos novos CD´S e perfumes.
-Gente! –Alice festejou após fitar o vazio. -Carlisle acabou de tomar a decisão. Vamos sair para caçar para lá de Tacoma ainda esta noite!
-Mas e a aula? –Emmett perguntou enquanto Alice dava pulinhos de excitação, os olhos dela negros de sede.
-Ah, nós que estamos no segundo ano não temos que nos preocupar com formatura. –Alice respondeu, negando qualquer decisão de adiar a caçada para ela. -E nossa freqüência ainda está longe de nos fazer bombar. Já se você e Rose quiserem caçar outro dia, para não perderem a aula de amanhã… Tudo bem. Os outros continuarão a ir.
-Oow, Emm. –eu implorei. -Nós não estamos com a freqüência tão ruim assim! Faltamos poucas vezes nesse semestre, comparado ao primeiro. Fiz as contas e podíamos faltar por mais quinze dias, sem danos na freqüência, sem repetição de ano. Nossas notas irão nos passar de ano tranquilamente também. E pelo resto da semana não teremos mais grupos de formatura, portanto a caçada não atrapalharia em nada. Vamos com eles?
Fiz cara de piedade. Eu estava com sede, e logo seria capaz de matar algum pequeno mamífero no quintal para me alimentar. Como pássaros. Não seria legal. E desde quando Emmett se preocupa com escola!?
-Desde quando eu e ele apostamos quem teria mais diplomas. –Edward confessou. -Se Emmett bombar esse ano, eu irei passá-lo no próximo. No momento estamos empatados. Se ele passar de ano, Emm me passa, porque vai ganhar o diploma primeiro que eu, já que estou no segundo ano, e vocês no terceiro. E seu marido odeia perder, então…
-Ah, que lindo. –reclamei ranzinza. -Eu aqui achando que um anjo visitou Emm, fazendo-o se preocupar em ir naquele purgatório. E morrendo esturricada de sede, enquanto vocês estão apostando quem tem mais diplomas!?
-Tudo bem, querida. Nós vamos. Não vou bombar mesmo.  –Emmett resolveu-se, mostrando um sorriso competitivo para Ed. Quase revirei meus olhos. Eles não tinham jeito.
-Iremos passar quinta e sexta-feira aos arredores de Tacoma. Sábado poderemos ir para Portland, as montanhas Rocky abrigam uma quantidade de animais legais. –Alice voltou a falar das decisões de Carlisle, absorta em visões.
-Vamos arrumar a mala então, pessoal. Rápido! Sairemos ainda hoje.  –Esme pediu, e começamos a nos dirigir para os quartos no segundo andar.
Eu estava subindo as escadas e Seth começou a tagarelar comigo.
-Cara, aquela torre é incrível! E a aquela cafeteria que tem a empresa bem aqui!? Meu Deus! O shopping é maior que Forks! E…
-Seth, sem exageros. –disse cética.
-Falo sério! –ele esbravejou. -As roupas que Jake me deu são muito loucas! Tipo, eu vou tomar o maior cuidado para não me transformar com elas, porque meu salário no restaurante que minha mãe montou em La Push não pagaria nem um par de sapatos durante três anos!
-Você falta uma semana no trabalho, e mesmo assim sua mãe te dá dinheiro? –eu disse indignada. Isso porque ele ainda faltaria mais as próximas duas semanas.
-Sim. –ele pareceu distraído. -Eu ajudo com muitas coisas, e o restaurante está fazendo o maior sucesso com os turistas. Minha mãe anda ganhando bem por lá, e manda dinheiro pra mim e Leah. Nós já a ajudamos bastante na montagem. A comida da festinha de… Noah, daquele dia, era do restaurante.
-Ah, tudo bem. Parecia realmente boa. –concluí. -Vá arrumar suas coisas. Vocês irão conosco na caçada, já que não tem nada para fazerem aqui mesmo.
-É claro que vamos!  -ele saltitou até o quarto de visitas, e Embry tentou avisá-lo que seria melhor não entrar agora. Seth o ignorou e irrompeu na porta, vendo sua irmã seminua se trocar. Leah correu para a porta, e prendeu os dedos de Seth fechando-a em um baque.
-Moleque! –ela gritou. -Você sabia de minha situação e abriu a porta! Já disse para você quanto a privacidade, não é? Já te disse quantas vezes para bater?  -ela espremeu ainda mais a porta, mas Seth provocava sua irmã, rindo alto. Ele não estava sentindo dor, ou fingia? Saí de perto, não queria que a cabeça dele voasse em mim. Leah ainda perderia a paciência com ele.
Logo Carlisle chegou do hospital, hoje sem plantões, e estávamos todos esperando ele na sala de visita, com as mochilas prontas para a viagem.
-Olá. –ele sorriu caloroso. -Alice realmente é muito antecipada, mas tudo bem. Logo iremos partir. Só tenho que…
-Eu já fiz suas malas, amor. –Esme cantarolou, recebendo um beijo apaixonado de meu pai. Meus irmãos e eu parecemos constrangidos, e Seth não ajudou muito dando uma risadinha.
-Obrigado, querida. –Carlisle acariciou as bochechas dela. -Só irei tomar uma ducha para tirar esse cheiro de hospital e partiremos.
***
Havia acabado de escurecer quando saímos de casa e fomos para Tacoma, outra cidade nos arredores de Seattle. O ar estava frio quando nos enfiamos nos bosques que cercavam algumas elevações montanhosas. Fred foi o primeiro a sentir o grupo de alces. Corremos até a direção deles, e nosso lanchinho estava feito.
O jantar ficaria para Portland. Carlisle mudou de opinião e iríamos passar quinta e sexta-feira acampando nas montanhas Rocky, e não nas florestas em Tacoma. Então partimos para a cidade de Portland assim que acabamos de caçar os alces.
Cortamos caminho pelos telhados das casas em plena cidade, já era madrugada e ninguém nos veria. Voltamos para Seattle, só que como o centro não dormia, tivemos que desviar a rota para os cantos da enorme cidade. Contornamos a baía de Elliott e seguimos correndo para Portland, que ficava do lado oposto de Tacoma, e por isso precisamos voltar para onde morávamos.
A madrugada chegou e ainda corríamos, quando faltava uma hora e meia para ela virar manhã, chegamos lá. Portland só tinha alguns estabelecimentos abertos esta hora, porém não passamos no coração da cidade. As montanhas Rocky nos esperavam. Era isso o que mais adorávamos nessa cidade. As montanhas rochosas.
As pernas de todos nós moviam-se freneticamente enquanto o terreno inclinava-se em morros. Os metamorfos tomaram forma animal e Nessie pegou carona em cima de Jake, reclamando que suas pernas doíam. Não tirava a razão dela. O terreno sinuoso e cheio de curvas realmente dava trabalho.
Inalei o ar e fui umas das primeiras a sentir o meu animal preferido.
Leão da montanha.  Emmett também sentiu minha caça, e correu na minha frente.
-É minha! -eu sussurrei possessiva. Ele não poderia roubar minha presa!
Ele acelerou ainda mais a corrida. Não acredito.
-Emmett.  –eu adverti e ele gargalhou baixinho, ignorando-me. Tudo bem, eu avisei. Saltei em suas costas e o derrubei no chão. Levantei-me rapidamente e tomei vantagem da corrida.
-Isso é golpe baixo!  -ele murmurou tentando ser bravo. Gargalhei em resposta.
-Eu não disse que jogaria limpo! E é o meu leão da montanha.  –avisei, e então eu me agachei quando o vi em meu campo de visão. Era um belo animal.
Era mais fácil pegá-lo pelas laterais, já que estava virado. O animal notou a movimentação ao seu redor e ficou de frente para mim, rosnando profundamente. Droga, atacar por trás, saltando, seria mais fácil agora. Suas garras voaram junto com ele em minha direção, quando o leão resolveu atacar-me.
Eba. Adoro brincadeirinhas com gatinhos.
Interceptei-o torcendo seu pescoço. Engatamos uma briga divertida, até eu me cansar dele. Fechei meus punhos e acertei seu peito. Escutei um estalo vindo das costelas, e enfiei meus dentes onde a pulsação estava diminuindo. No pescoço. O sangue quente encheu minha boca e acalmou a garganta que ardia. Isso era ótimo.
Emmett deu a sorte de escutar um macho -talvez companheiro da que eu matei- a poucos metros de mim. Levantei-me do chão e limpei a boca, encontrando meu marido logo depois. Queríamos mais. Pude escutar Nessie caçando com a ajuda de Jake, e Edward com Bella. O resto da família deveria estar um pouco mais longe.
Corri atrás de mais alces que se alimentavam nesta altura das montanhas e peguei dois. Estava realmente cheia agora. E podia saber que os dourados de meus olhos eram puro ouro. Emm achou mais um leão depois de ter pegado um alce, e se distanciou de mim na procura de algum filhote. Ele estava faminto.
Escutei passos vindo na minha direção, enquanto eu estava sentada numa pedra, esperando Emm retornar. Edward estava ao meu lado, a posição meio defensiva.
-O que foi?  -perguntei confusa. Era para ele estar caçando com Bella um pouco mais abaixo de onde eu estava.
-Escutei alguns pensamentos de um estranho por aqui. –ele franziu o cenho. -Como estava mais para o seu lado, deixei Bella com Alice e resolvi checar caso precisasse. Vi que Emm não estava aqui por perto, e você sozinha com os pensamentos não seria legal. Talvez seja um nômade cortando caminho por aqui. Ele não pensa em atacar, só quer ver de quem é o cheiro. Ele está curioso e parece estranhamente surpreso.
Quando Edward acabou de me explicar, escutei aplausos vindos da mata que se formava montanha acima, bem na frente de nós. Era uma salva de palmas sarcástica, irônica. Estranhamente incomum. Senti um arrepio percorrer meu corpo. Não parecia algo bom. A pessoa não saía de dentro das árvores, deixando seu rosto e corpo encoberto.
-Quem está aí? –Edward perguntou educadamente.
-Só queria conversar.  –disse a voz masculina de tenor suave. Havia algo muito familiar nela.
-Conversar o que? Responda primeiro. –Ed indagou. -Pelo que consigo ver em sua mente, já nos conhece. E está surpreso com algo.
Como assim já nos conhece? E porque Alice não o viu? Ela poderia ter focado suas visões em somente um de nós, e não no grupo. Assim conseguiria ver nosso futuro, já que os lobos estão conosco. Por acaso o estranho decidiu nos encontrar de surpresa? Ou o estranho não esperava nos encontrar? Mas como ele já havia nos conhecido?
-Não reconhecem minha voz? Meu cheiro? –ele soou novamente irônico, como se algo muito óbvio estivesse passando despercebido. -Como será possível, já que eu era um humano bem próximo?
A voz dele parecia com alguma que eu ouvi, mas não me lembro exatamente. Inspirei o ar e seu cheiro também era familiar, mesmo que tivesse o aroma vampiresco. Eu conhecia aquele timbre de voz e essência do aroma, porém não me lembrava de onde. Mas havia algo de diferente nisso. Tudo parecia mais vampiro nele.
-Sabemos que você é familiar! –eu gralhei. -Porém como você se transformou, algumas coisas mudaram também. Seu cheiro e voz não são a mesma coisa que antes.  –estava ficando irritada por esse joguinho de adivinha.
-Para variar, você continua a mesma nervosinha de sempre, Rosalie.  -gelei quando ele falou meu nome. Quem quer que esteja aí, realmente era bem próximo dos Cullen.
-Ei, garoto… -Edward parecia curioso.  –Por que você esconde certos pensamentos de mim, e como sabe exatamente como meu dom funciona?
-Esse é o meu dom. Eu sei o poder dos outros.  –o misterioso vampiro respondeu. Que droga! Todos têm poderes, menos eu. Hoje em dia vampiros com dons não são mais tão raros, como a própria Jane disse. O rapaz que conversava conosco era como Eleazer Denali.
-Mas tem algo ainda melhor em seu poder, que você não quer falar. O que é?  -meu irmão estava ainda mais curioso.
-Bem… -a voz familiar hesitou.  -Eu posso “clonar” o dom de quem eu quiser. Por exemplo, poderia duplicar seu dom Edward, e também passar a tê-lo. Poderia ler mentes como você, se eu desejasse. Muito bom, não é? Eu posso saber os dons, e copiá-los. No momento estou com o dom de minha criadora, além do meu. Bloqueio que mudem ou vejam minhas decisões. Quase ninguém sabe o que faço agora. Ninguém consegue saber que escolha eu vou tomar. Isso é ótimo. Por isso não vê certos pensamentos meus, e por isso, a vidente que está caçando por aqui, não viu minha chegada. Também pode ser porque foi uma surpresa encontrá-los, mas ainda sim, meu dom ajudou muito a cegá-la. Sim, eu senti o poder dela. Alice é muito talentosa. Bella também. Renesmee, eu nem preciso comentar.
Então isso explica porque Alice não viu nada. Outro arrepio me percorreu. Como ele sabia nossos nomes? Por que ele estava querendo saber mais de nossos dons? Quando o estranho, porém conhecido, citou o nome da esposa e filha de meu irmão foi o bastante.
-Quem é você!? -a voz raivosa de Edward irrompeu as montanhas, dando eco. Logo o resto da família estaria aqui.  -Saia das sombras, seu covarde!
O vampiro que se escondia em meio às árvores soltou uma risada gutural. Novamente irônico. Por incrível que pareça, ele conseguiu me irritar em menos de trinta segundos. O que é comum somente com humanos. Ele tinha a facilidade de me irritar. Novamente minha mente gritou que tinha algo óbvio, e eu deixava passar.
-Vocês sabem… –o rapaz continuou falando, escondido na mata. -Eu fiquei com tanto ódio por nunca saber quem realmente vocês eram. Sempre achei que tinham um segredo incontável. E só descobri, quando comecei a fazer parte dele também. O que me faz sentir mais ódio de vocês. Como fui idiota de nunca ter desconfiado disto?
Quem era esse desgraçado!?
Minha vontade era de arrastá-lo para fora da mata e ver seu rosto. Não foi preciso pensar muito nisso, ele logo mostrou parcialmente parte de seu corpo na luz cinzenta da madrugada que pensava em clarear. Ainda não era o bastante para nós reconhecermos ele.
O rapaz conseguiu achar uma posição em que somente seu rosto não ficava a mostra, mas sim na escuridão. Porém seu corpo era visível agora.
Sua pele de um branco pálido, pelo que avaliei nos braços descobertos. Era alto, musculoso e vestia-se como um garoto de classe alta. Eu conhecia esses contornos, a essência do cheiro e da voz, e a ironia sempre presente aonde ia.
Mas de onde!? Quem!? Eu e Ed não nos lembrávamos, e o estranho não contava.
-Mostre-se! Se sente tanto ódio porque não se mostra!?  -Edward cuspiu acidamente. Atrás de mim, o resto da família e os lobos chegaram. Quase me senti aliviada quando Emm se colocou ao meu lado, curvado por instinto sobre mim.
-Quem é esse garoto?  -Carlisle também grunhiu.
-Que ótimo… -o rapaz disse novamente sarcástico. Ele estava me dando nos nervos. Emmett colocou as mãos em minha cintura, me protegendo.  -A família trouxe os animais de estimação, está completa para a reunião agora.
Os lobos rosnaram raivosamente para as sombras. Eu estava pensando seriamente em ir arrastar aquele vampiro idiota de lá.
Então seu rosto apareceu na luz fraca e acinzentada da madrugada que começava a clarear. Quando o fitei fixamente, todas as peças se encaixaram com um tremor forte de horror que quase fez meus joelhos cederem. Tudo estava tão óbvio. Senti-me uma completa ignorante por não ter percebido isso antes.
-Como você… –Edward não conseguiu terminar de falar. Eu estava paralisada e boquiaberta.
-Pois é. Já sabem quem eu sou agora.  –ele disse com seus grandes olhos vermelhos. Não queria pensar em seu nome, estava me dando arrepios somente de vê-lo. Só podia ser perseguição.
-Todos acharam que estivesse doente! Em que encrenca se meteu para ser transformado?  -Edward perguntou, colocando Bella atrás dele por instinto.
Michael Stone nos fitou, sorrindo maquiavelicamente.
Eu ainda estava perplexa. Os olhos azuis de Royce não existiam mais nele. Eram só enormes bolas vermelhas com uma pupila negra como as sombras. O branco de sua pele parecia porcelana agora, uma porcelana inquebrável. E os cabelos negros e curtos, tão atraentes para qualquer presa humana cair facilmente, que me davam pavor.
Minha garganta se fechou de desespero. Esse garoto descontrolado emocionalmente não poderia ter se tornado um de nós. Ele era louco. Perigoso.
-Bem, no final de semana passado, meu amigo veio me buscar para ir para sua casa, em Nova York. –Michael começou a explicar sua história. A versão real dela. -Chegamos bem lá, e a noite saímos para uma festa. Eu bebi muito, e usei drogas. Hindley, meu colega, não usou nada… Ele é o tipo de pessoa careta. Estávamos voltando a pé para sua casa, quando uma linda garota cruzou nosso caminho.
Michael sorriu novamente. Como se gostasse de tudo aquilo. Desde humano foi descontrolado, o que faria agora, então?
-Ela perguntou se podíamos ajudá-la a encontrar sua irmã mais nova, que havia entrado num beco escuro, e ela tinha medo de ir sozinha. Nós aceitamos, acreditamos nela. Cada vez mais que seguíamos no beco, tinha a sensação de que existia alguma coisa errada. Hindley gritou alto, e eu não enxergava nada. Perguntava-me o que foi e onde a garota estava. Ninguém respondia e estava escuro.
Michael parou novamente, e pela primeira vez, fechou seu rosto em uma expressão raivosa.
-Foi quando eu senti a boca dela roçando meu pescoço. E a luz da Lua mostrou os olhos negros da menina. Negros de sede, ficando avermelhado. Entendi o que ela era nesse momento. E entendi que Hindley não escapou. Seus dentes cravaram em mim, mas depois de poucos segundos, ela me deixou, e lembro-me de ter murmurado algo como: Sangue sujo. Recordei das drogas que usei, e meu amigo não. E então, a dor começou.
Michael interrompeu essa parte da história e foi para outra, quase revoltado.
-Durante todo o tempo, eu sentia alguém ao meu lado. Quando a dor parou, eu acordei em uma casa velha, caindo aos pedaços, e a mesma garota ao meu lado. Betthany, ela se apresentou. Disse que na mesma hora que me mordeu, não quis me largar lá, então me arrastou para aquele casebre que ela se escondia e esperou minha transformação acabar. Olhei-me no espelho pela primeira vez, e me assustei com os olhos, a garganta ardia muito.
Estávamos todos prestando atenção na história, ele suspirou e a recomeçou, com um olhar estranho cruzando sua expressão.
-Descobri meu poder, e cacei pela primeira vez em Nova York. Betthany disse que não viria comigo à Seattle, para onde eu queria voltar, e briguei com ela. Não tenho mais notícias de minha criadora. A não ser pelo dom dela que copiei, e o uso nesse momento. Fui até Seattle e cacei por lá. Pela noite, sempre via alguns colegas do colégio se divertindo. Eu os invejei. Quis reencontrar Betthany, afinal, em Seattle eu não teria mais amigos com que pudesse conviver. Logo eu estaria como desaparecido por lá, e tudo resolvido. Pelo visto, fui dado como doente. Meus pais não se importariam mesmo, então…
Ele pausou, e Carlisle disse para ele continuar, pois sabíamos que a história estava incompleta. Eu me lembrei da manchete no jornal, dizendo sobre o assassinato de uma jovem. Foi Michael, e não outro nômade.
-Bem, eu estava retornando para Nova York agora. –ele disse. -Cortei caminho por aqui, e senti o cheiro de vampiros, e de algo muito… Estranho.  –os metamorfos, pensei.  -Resolvi checar, e olha o que eu encontro. Vocês caçando. Não sei como nunca desconfiei disso antes. Os Cullen foram sempre tão… Inumanos. Sempre achei que havia algo errado, mas não que eram vampiros. E por ironia, só descobri o que eram quando virei um. Eu odeio vocês. Deveriam ter me falado que esses monstros existiam!  -ele gritou raivoso, e a árvore em que ele estava recostado se chacoalhou.
-Michael, nós não falamos isso para humanos.  –Carlisle tentou acalmá-lo.
-Deveriam ter falado para mim pelo menos! Explicar porque Renesmee nunca poderia ter uma relação comigo! E contar que ela pertencia à um animal de quatro patas, e não para um humano como Jacob aparentava ser!  -ele rosnou. Realmente Michael estava revoltado conosco. Jacob rosnou em resposta na sua forma de lobo.
Como esse garoto pensa que éramos obrigados a falar nosso segredo para ele!? Finalmente achei uma pessoa mais egoísta que eu.
-Mas se eu não posso tê-la…  –Michael emendou, seus olhos vermelhos diabólicos faiscaram de ódio. Ele parecia uma personificação do mal quando fitou nossos rostos.
–Ninguém mais terá! –ele gritou. -Essa será a vingança por terem enganado tantos humanos assim!
-Seu idiota! Você também engana humanos agora, você também não pode contar nada! Não é culpa nossa, é a lei.  –Bella cuspiu.
-Eu não engano humanos. –Michael retrucou. -Posso não lhes contar nada, mas também não convivo com eles, como vocês, que se alimentam de animais só para interagir com o que deveria ser seu alimento! Que mentem até quando existe amor entre espécies diferentes!
-Que amor? Entre quem?  -Esme perguntou. Eu segurei uma gargalhada sarcástica que quase transbordou de mim. Ele era realmente louco.
-Entre eu e Nessie! –Michael gritou com veneno escorrendo da boca e os olhos demoníacos. -Vocês me enganaram. Não foi justo. E chegou a minha vez de não ser!  -ele sorriu. Jacob se enfiou na frente de Ness.
-Não é só dela que eu quero vingança, cachorro idiota. É do resto da família. Principalmente de Jasper, que entende todos os sentimentos. Não é, otário? Que sentiu meu sofrimento!
O temperamento explosivo de Michael nunca foi bom, principalmente agora. Sua imaturidade não o deixava entender o porquê de esconder a existência de vampiros para os humanos. Quanto mais que Nessie nunca pertenceu à ele.
-Não conseguirá fazer isso. Como você sentiu, Bella é um escudo. –Edward o avisou.
-Bella não é a melhor de todas na sua família. –Michael quase riu de vitória. -Tem um garoto aí, que passa facilmente pelo poder de Bella.  Que é melhor que ela.
-Fred.  –Esme murmurou.
-Pois é. – Michael balançou as mãos, indiferente. -Os poderes de Bella não são páreos para o de Fred, que os pode repelir.
-E daí? Pior para você, que terá que passar por Fred então!  -Carlisle estava saindo de sua calma habitual.
-E daí, SEU VELHO, que se eu quiser, e eu vou fazer, posso clonar os dons de Fred para mim, como agora. E acabar com vocês.  –Michael sorriu como nem o próprio demônio sorriria.
O que esse garoto está fazendo? Por que tanta raiva guardada?
-Meu poder também pode te repelir, Michael.  –Fred ameaçou. –Você não pode usar seus dons contra mim. Você não irá pegá-los.
Michael riu.
-Vou sim. –ele respondeu. –E como seu poder vai repelir ele próprio? Causar repulsa nele mesmo? Não tem como. Eu acabei de copiar seu dom, e você não pode fazer nada. Você não pode repelir meu poder. Quer dizer, seu poder que está comigo.
-Então não tem como você ativar ele sobre mim também. –Fred pareceu cético. –Afinal, como você irá repelir meu próprio dom?
-Está muito enganado. –Michael teimou. -Não sei o porquê, mas consigo usar o dom que clonei da pessoa contra ela mesma. Ao contrário de você, que não pode usar o seu contra mim agora. Talvez por eu ter tantos dons? Ser superdotado? Não sei. Só sei que você irá experimentar seu dom pela primeira vez, e não poderá parar. Nem impedir que ninguém sinta. Você está sem dons contra mim, Fred. Eu os tenho agora. Eu falei que iria me vingar.
Neste momento tudo ficou estranho. Os cheiros e minha visão se misturavam me deixando tonta, enjoada. Eu não conseguia focar minha audição e nem fitar a minha frente. Queria vomitar. Edward grunhiu algo como: Meus poderes não funcionam com ele. Mal consigo ler suas mentes, quanto mais a de Michael e seus vários dons!.
Com muita dificuldade eu discerni o que Michael acabou de falar.
-Bem, vou ser bonzinho. Começarei por você. –então minha mente se encheu de repulsa novamente, e eu parecia tentar me desgrudar do meu próprio corpo. Eu era repelida.
Michael realmente incapacitou Fred e usava os dons dele contra nós!? Por quem ele começaria!? Com quem ele estava falando!?
Senti as mãos de Emmett deixarem minha cintura.
Eu queria gritar, mas estava nauseada demais para isso. Não sentia mais o aroma de Emm ao meu lado, por mais misturado que todos estivessem agora.
Ele levou Emmett?
Meu Emmett!?
Por que Michael começaria por ele? Estaria esse demônio se vingando de mim pela noite do parque!?
Dei-me conta que só havia escutado Michael porque ele esteve perto de mim, obviamente. Era repulsa demais para eu ter conseguido ouvir se ele estivesse longe. Assim Michael conseguiu arrastar Emm para onde ele estivesse indo, com os planos que ele estivesse fazendo. Não podia acreditar. Meu marido estava sofrendo repulsa de Michael enquanto era seqüestrado por aquele maníaco!?
Fiquei por mais cinco minutos, em média, nauseada. Isto daria grande vantagem para Michael, principalmente com ele repelindo os dons de Bella, Alice, Edward, Jasper e o próprio Fred.
Como eu acharia Emmett?
Eu parei de me sentir enojada junto com minha família, então meus sentidos e corpo foram voltando ao normal aos poucos. Quando meus olhos pareceram se acertar ao ambiente, olhei para o lado e Emmett realmente não estava aqui.
-MALDITO! –eu gritei com todas as minhas forças.
-Não consigo ver o futuro deles! Michael me repele dele e de Emm!  –Alice esbravejou, com sua voz aguda quase gritando de preocupação.
-Não vejo seus pensamentos também. Só consigo ver os nossos agora.  -Edward complementou, deixando claro que Michael usava o dom que clonou de Fred contra nós. Ele estava tentando ocultar Emmett e ele mesmo de nós. E o pior, é que ele era capaz disso.
Altamente capaz.
Eu comecei a marchar para qualquer direção, já que não sentia nem o cheiro deles, pois Michael repelia até os extintos mais básicos de todos nós. MALDITO.
Eu só queria reencontrar meu Emmett, nem que para isso eu tivesse que vagar para as profundezas do mais horrível inferno, de onde Michael nunca deveria ter saído. Ele nunca, nunca deveria ter provocado minha família. Quanto mais me provocado.
Pulei de uma pedra para a outra, com o ódio me impulsionando, e calculando o quão ruim seria a morte de Michael Stone.

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