quinta-feira, 16 de junho de 2011

Diário de uma imortal – Capítulo 16

Neve e sangue
A cama estava quente com o aquecedor ligado bem ao nosso lado. O ar estava realmente frio, até mesmo para um vampiro. Emmett virou seu corpo sobre o meu e desligou o despertador que vibrava loucamente.
Porcaria, escola de novo.
Fitei a iluminação estranha vinda da porta da varanda. Não era o sol. O ambiente lá fora parecia muito branco. Levantei-me da cama curiosa e observei o quarto estranhamente claro demais.
Abri as cortinas da varanda em um puxão, e vi flocos enormes de neve cair ao solo e juntarem-se aos montes na grama.
Isso era legal. Neve significa uma coisa. Guerra.
Emmett saltou instantaneamente para o meu lado ao notar a paisagem glacial.
-Eu pego Alice na ida para escola. -ele murmurou, fazendo planos. -Ela vai entrar no Porsche e vou mirar no seu cabelo, e…!
Emmett soltou uma risada psicótica um tanto parecida com as dos vilões de histórias em quadrinhos. Eu sempre ficava intrigada com o quão empolgado ele era para essas coisas. Nós começamos a nos vestir para ir ao colégio. Eu escolhi uma blusa preta de mangas compridas e vesti um casaco de pele por cima. Calcei um par de botas mais velho, mas que não era feio. Na verdade, ele era o único adequado para ir à escola, pois os outros eram… Chamativos demais. Esse tinha um salto pequeno e fino, cobria metade das panturrilhas e era de um preto reluzente.
Sabia o que Alice comentaria das botas quando as visse: “Nossa! Que brega! Essa coleção da Gucci é do ano passado! Como pode usar coisas repetidas? Olhe para meus pés e Blá-Blá-Blá…”.
Hoje nem eu, Emm ou meus irmãos passamos na cozinha para saudar nossos pais, Fred ou os lobos com um “Bom dia”. Renesmee nem tomou café, e só pôde se despedir de Jacob, que faltaria hoje novamente. Tínhamos que sair de casa mais cedo. A neve iria fazer o trânsito ficar lento. E chegar atrasada não seria legal. Principalmente quando a primeira aula de hoje foi cedida para os grupos de formatura organizar mais coisas.
Fred correu até a garagem, antes que saíssemos acelerando com os carros, e despediu-se de nós. Emmett foi até Fred e com um tapa nas costas saudou o irmão. Fred descontou em seguida com uma forte bofetada também nas costas. Muitas gargalhadas saíram dos dois. Parecia que todos se davam bem com o caçula, e ele realmente era uma boa pessoa. Fred sentia-se bem aqui, e estava se acostumando cada vez mais com nosso estilo de vida.
Alice fitou o vazio por um tempo, e cerrou os olhos para Emm enquanto ele entrava novamente no meu carro. Minha irmã não entrou no Porsche.
-Se fizer isso, Emmett Cullen… –ela ameaçou. –Ficará sem braços por dois meses!
Alice viu a decisão de Emmett. Meu marido mostrou a língua para ela, desanimado por seu plano ter ido por água abaixo. Por via das dúvidas, Alice pediu para ser escoltada até seu carro com Ed e Jazz.
Quando chegamos à escola, os humanos já guerreavam. Víamos enormes bolas brancas no ar que logo se espatifavam no chão ou na jaqueta dos colegas. Fiz cara de poucos amigos quando passei por uma garota que acidentalmente jogou sua bola em minha calça, ou propositalmente. Ela desculpou-se e saiu pelas beiradas, constrangida.
Não gostava de brincar de guerra com humanos. A pontaria deles normalmente é de dar vontade de chorar ou pular de um prédio. Preferia meus irmãos e lobos nessa brincadeira de neve.
As primeiras aulas, como sempre, passaram tediosamente. E minha bolsa -onde enfiava todos os livros, apostilas e cadernos necessários para ir ao purgatório- estava repleta de pequenos papéis. Culpa de Emmett, que em todas as aulas que tínhamos na mesma sala trocava bilhetinhos comigo. Então o sinal para o intervalo gloriosamente bateu.
Eu estava saindo da sala ao lado de Emm, em direção ao refeitório, quando Elizza, a melhor amiga de Nessie acenou para eu ir até ela. Ela havia acabado de sair de uma das salas do segundo ano, sem a companhia de ninguém de minha família. Nessa aula não devia ter nenhum Cullen. Andei graciosamente até lá, tentando ao máximo não assustá-la com o jeito vampiresco que todos de minha família tinham.
-Renesmee me chamou para ir passar o final de semana com vocês. Já é sexta, e eu tenho que responder para ela. –Elizza disse. -Bella e Alice gostaram da idéia. É que… Acha que vou atrapalhar? Acho que Jasper não gosta de mim.  -suas bochechas ficaram vermelhas.
-Não! –disse quase gargalhando. Jasper só tenta se controlar, querida. -Você não vai atrapalhar. E Jasper não tem aversão por você, é simplesmente o jeito dele.
-Mas vocês não estão com visitas? –ela indagou. Perguntei-me porque Elizza recorreu a mim para tirar todas suas dúvidas. -Bella me falou de um primo, acho que é Fred. E Jacob não está doente e com três visitas também? Talvez outro dia fosse melhor… a casa já está cheia.
-Oh Jacob está melhorando, é só uma gripe forte. –menti descaradamente. Doente porque um vampiro o mordeu. E como Jacob é um metamorfo, quase morreu. -Por isso faltou ontem e hoje. E Fred é um primo que veio nos visitar por um tempo. Os outros que estão lá são parentes de Jacob. Está tudo bem, não irá atrapalhar.
-Hmm… Se não for incomodar mesmo, eu vou então logo depois do almoço. Até amanhã a tarde. Obrigada.  –ela sorriu sem graça e eu devolvi o sorriso. Elizza saiu disparada pelo corredor. Cada humano…
Edward veio até mim com Bella, saindo da sala ao lado da que Elizza saiu.
-Falei algo errado? –perguntei, estranhando o fato de ela ter saído correndo. Emmett se aproximou de nós e me deu as mãos.
-Não. Tudo certo.  –Edward sorriu. –Você falou que Fred é um primo, que o bando de lobos é parente de Jake, e que ele estava gripado. Assim como combinamos caso alguém perguntasse. Elizza não ficou com medo, ela é meio estabanada mesmo. Renesmee se diverte com ela por isso. Acha que Fred… -Edward hesitou em terminar de falar.
-Ele irá se controlar com essa garota por perto? Na nossa casa? –Ed franziu o cenho, fitando Bella. Isso era preocupante.
-O levarei para caçar hoje à noite. –meu irmão emendou sua frase, otimista. -Qualquer coisa eu tirarei Fred de casa enquanto Elizza estiver lá. Não preciso estragar o final de semana das garotas por isso. Fred, se puder se controlar bem, pode ficar e nós o ajudaremos. Não é?
-Sim, mano. Relaxe. -Emm deu uma piscadela.
-Ok então. Vamos para o refeitório…  –eu falei com uma voz entediada. Nessie, Alice e Jasper surgiram no corredor e vieram conosco.
Sentamos na mesa próxima a um grupo de garotas da sala de meus irmãos. Elas eram atléticas e vestiam roupas chamativas demais. Eram as típicas seguidoras de meninos riquinhos. Ouvi, sem a mínima vontade e completamente sem nada para fazer no maldito intervalo, uma delas cochichar com a outra.
-Por que seu paquera anda faltando? –a voz da primeira soou maliciosa e entrecortada com risadinhas.
-Michael? -a outra respondeu desanimada, e eu quase revirei os olhos. De novo eu escutando coisas desse menino!?
-Sim. –a voz da primeira novamente soou. -Ouvimos dizer que ele está doente, mas acho que não. É estranho. A senhora que toma conta da pensão onde ele vive, disse que na última vez que viu Michael foi no final de semana, e ele estava indo para Nova York com um amigo que veio buscá-lo, mas depois não o viu mais. Como as pessoas sabem que ele está doente se nem aqui ele estava? E nem sabemos se ele está, porque a velhinha não o viu de novo.
-E seus pais, ele não pode estar com os pais dele no outro país? –a outra indagou.
-Até onde eu sei Michael não foi para outro país para encontrar seus pais. –a primeira respondeu com um tom cético. -E eles também não falaram que o filho estava doente, ou mesmo que o filho estivesse lá. Eles também querem saber de Michael. Será que ele está na casa do amigo, em Nova York, e matando aula perto da formatura, dando um de doente desaparecido para todo mundo?
-Não sei. –a outra gargalhou com a última frase. -Não me importo mais com ele. Agora estou em outra, e você mal imagina o que já aconteceu… –parei de escutar a conversa por aí. Isso seria nojento e nada interessante para mim.
Michael com certeza está matando aula, e fazendo se passar de doente enquanto vira Nova York do avesso, colocando a velha da pensão onde ele mora aqui, e seus pais no outro país, loucos. Idiota.
O resto do dia no purgatório foi tranqüilo. Então o sinal divino que bate toda sexta-feira soou. Chegamos a nossa casa com um trânsito meio lento, e Fred nos esperava junto da porta, com Esme e os lobos atrás dele. Até Jacob já estava de pé, sorrindo e completamente recuperado.
Que recepção toda era essa? –pensei enquanto Ed escondeu uma risada. Cerrei meus olhos, desconfiada.
Enquanto eu praticamente marchava na direção da porta de entrada, já que meus pés afundavam-se na neve e eles ficavam pesados ao dar os passos, Alice parou como uma estátua no meio do caminho, e gritou ensurdecedoramente alto:
-Esme, eu não acredito que…! –ela mal terminou a frase e uma enorme bola de neve foi lançada por Seth na sua boca. Ela cuspiu os pedaços de gelo e voou na direção do pequeno lobo na forma humana.
-A guerra está oficialmente inaugurada.  –Fred murmurou com um sorriso e cavou suas mãos na neve ao sair do hall de entrada da casa. Ele piscou para mim com uma expressão sapeca, e desviei de sua bola metamorfoseada em uma melancia branca antes que me atingisse. Foi parar na cabeça de Jasper, que me fitou desconfiado.
-Não fui eu! Foi Fr… –tentei me explicar, sem sucesso. Palavras profanas foram pronunciadas por mim em série, após meu cabelo se encharcar com as bolas que Jasper jogou como vingança por algo que não fiz. Todos gargalhavam a essa altura.
Saltei para uma árvore –após todos terem tirado seus sapatos e encarado a água sólida- que fica na frente da casa e a chacoalhei com força. O lobo avermelhado que estava embaixo dela havia ficado branco. Ele rosnou bravo, chacoalhando seu corpo e expulsando dos pelos toda a neve. Um quase uivo em forma de risada saiu dele. Eu havia pegado Jacob!
Corremos para o quintal, contornando a casa, e Esme que também havia entrado na brincadeira acertou algum objeto voador não identificado em Emmett. Foi lançado rápido demais para saber o que era.
Ah, aquilo também era um bola de neve. –cheguei a conclusão quando meu marido começou a perseguir Esme, com os cabelos cheios de água branca. Lembrei-me da guerra dos humanos pela manhã… A nossa era incomparavelmente mais emocionante.
-Ei! Que porcaria é essa?! -Edward gralhou quando uma pedra voou em sua direção. Ele a pegou no ar antes que atingisse sua cabeça. Isso arrancou altas risadas da família.
-Foi mau cara! Ao invés de neve peguei pedra e…  –Emmett fingia-se de santo ao dar explicações. Edward sorriu para ele enquanto pegava mais neve na mão. Fred acertou Emm antes por trás, com uma bola canhão branca. Então Fred foi pego por Leah, que tinha uma enorme bola em sua boca, já que estava na forma de lobo. Não sei como ela conseguiu lançá-la. Deveria estar com baba.
Nossa guerra durou até de tarde, quando os lobos e Nessie ficaram com fome e frio, graças ao forte vento que começou a soprar. Ao entrarmos todos na casa, eu fui até a sala e ensinei Esme a tocar piano novamente, como havia prometido há alguns dias. Só não cumpri antes porque Alice sumiu, Fred veio para cá, e os Volturi também.
Parece que os nossos dias de sossego finalmente chegaram. Nenhum assassinato estranho aconteceu novamente em Seattle, então presumimos que o vampiro nômade tenha partido. Se fosse um vampiro nômade.
-Assim, Rosalie? Veja. Quer dizer, escute.  –Esme começou a tocar a música que lhe ensinei agora. E saiu-se perfeitamente bem. Ela havia se lembrado rapidamente dos acordes, claves e notas. Para alguém que não tocava há anos, em trinta minutos tocar Arabesque, de Debussy, é um grande salto.
-Isso, Esme!  –comemorei ao notar a expressão de satisfeita dela. Realmente, não havia como não amar pessoas assim, por mais que faltasse algo na minha vida. Era impossível não criar laços. Rimos quando ela acabou a música, e notou que foi perfeita. Ela me deu um abraço apertado e um beijo no topo da cabeça.
Senti também que não havia como eu ter tido outra mãe nessa vida. Ou até mesmo na outra. Esme se encaixava tão perfeitamente nesse papel.
-Te amo, querida. Obrigada.  –ela me olhou amavelmente. Seus cílios bateram uma vez, o que a fez ficar ainda mais maternal. A abracei em retribuição, contente.
-Não tem como haver mãe melhor que você, Esme.  –eu disse. -Eu também te amo. E agradeço muito por pertencer à uma família tão perfeita. Você sabe que por mais raivosa que eu seja às vezes, gosto muito de vocês.
-Eu é que agradeço por ter filhos como vocês. –ela sorriu, afagando meus cabelos. –E é claro que eu sei que você gosta de nós, Rosie.
***
-Emmett… -cantarolei ao seu lado após terminarmos as lições de casa. Ficamos fazendo elas pelo resto da tarde. Ele abriu um sorriso malicioso para mim, aproximando-se mais e passando suas mãos por minhas pernas, parando nos quadris.
-Você não se cansa fácil, não é!? –ele gargalhou satisfeito. -Acabamos de sair de uma guerra de neve e você está…
Como um vampiro pode pensar tanto nisso!?
-Emmett, controle seus desejos, por favor. –falei rindo. -Não estou falando disso.  -sorri da sua expressão surpresa.  –Ia dizer que logo iremos nos formar de novo, faltam menos de dois meses!
-Pois é! –ele comemorou. -Logo teremos mais um diploma na coleção! Tenho que comprar uma roupa social para a festa.
-Você bateu com a cabeça em algum lugar? -perguntei confusa. Normalmente era eu quem comprava isso para ele. -Desde quando você liga para as roupas sociais nas festas de formatura?
-Desde que fiquei sabendo que você me acha sexy em roupas sociais. –Emm sorriu malicioso. Essa expressão dele sempre acendia uma chama em mim. E quase sempre não conseguia contê-la com sucesso.
-Edward… –revirei meus olhos, culpando o óbvio culpado. É claro que foi ele quem contou. Emmett riu.
-Tia!  -a porta de meu quarto recebeu três batidinhas rápidas.
-Entre, Nessie. –falei e então ela apareceu no vão da porta. Parecia que estava envergonhada. Olhei para mim e Emmett, tentando achar o motivo para o constrangimento dela. Não havia nada demais, somente estávamos no chão e ele tinha duas mãos nas minhas pernas. Não foi parecido com o que Bella viu. Aquilo sim foi constrangedor.
-O que foi, querida? Entre!  -a convidei. Ela hesitou e quando entrou no quarto expulsou Emmett, empurrando-o porta a fora. O que é isso?
-Tia. –ela murmurou. –Pedi para que minha mãe colocasse seu escudo em nosso redor, assim meu pai não sabe no que estamos pensando. Depois que ela tirar teremos que nos virar. É que… Nem minha mãe sabe o que é. Ela aceitou colocar o escudo, e só depois receber uma explicação. Prometi para ela que explicaria.
-Fale o que é, Renesmee!  -pedi curiosa. Ela chegou ao lado de meus ouvidos e sussurrou.
-Estou sem graça de te pedir, mas… Podia me ajudar a comprar algumas… Lingeries?  -ela se encolheu na última palavra, como se estivesse esperando gargalhadas de mim.
-Está dando todo esse trabalho só para comprar lingeries!? –eu perguntei impaciente.
-SHHH! Que droga, vai estragar tudo assim! –ela gralhou. -É que… Não são simples lingeries… Coisas diferentes, tia. Com rendas e…
Ela corou no final, e se eu pudesse também coraria. Nunca me imaginei ajudando Renesmee a escolher lingeries para usar com Jacob. Se eu pudesse vomitaria também. Edward realmente não deveria ficar sabendo, ele é teimoso quanto a idade dela. Diz que Ness tem seis anos, e não dezessete. Nem Bella concorda com ele, pois Renesmee tem a mentalidade de seu físico. Tanto que Bella ainda ajuda Renesmee com essas coisas. Ela é uma mãe compreensível.
-Bem… –respirei fundo.  –É claro, querida. Contando que seu pai não me mate depois, e que você conte para sua mãe, e que não fiquemos pensando nisso perto de seu pai. Tudo bem. Marque o dia das compras, e eu te ajudo!
-AAH! –ela quase gritou. -Eu te amo, tia Rose! Só não chamo tia Alice porque ela me faria comprar a Victoria’s Secret inteira. Se bem que quando ela tiver uma visão, irá do mesmo jeito. Vou pedir para mamãe colocar seu escudo em nós quando formos sair. E em Tia Alice também, porque ela vai ver as nossas decisões, e seus pensamentos iriam para o papai. Algo nada legal…
-Tudo bem. –dei um aperto em sua bochecha. –E quando Alice tiver uma visão de nossas compras, e se o escudo de sua mãe não estiver nela, peça para sua tia esconder ao máximo os pensamentos. Ok? –Nessie concordou prontamente, e saiu do quarto quase saltitando.
Logo Emmett estava de volta, um pouco confuso, mas não quis nem perguntar o que havia acontecido.
O final da tarde e noite de sexta-feira passaram rapidamente. Logo era manhã, e quando o despertador não tocou dei glória por ser sábado. Eu e Emm conversamos um pouco com nossos irmãos e jogamos vídeo game quando o tédio tomou conta.
Elizza chegaria daqui quatro horas.
Arrumamos nossa casa de um modo mais humano para recepcioná-la. Edward havia saído com Fred ontem pela noite para eles caçarem, pois nosso irmão mais novo fazia questão de permanecer em casa enquanto a amiga de Nessie estivesse. Fred queria conviver mais com humanos, acostumando seu autocontrole. Carlisle concordou com a decisão dele, já que Fred parecia não ser tão incontrolável assim.
A neve ainda predomina na paisagem, e o riacho que passa atrás do quintal de nossa casa estava congelado. Lembrava-me uma pista de patinação. O inverno seria rigoroso este ano.
Os lobos e Ness acabaram de almoçar e arrumavam a cozinha lentamente. Eu estava tirando os pratos da mesa junto de Fred, ajudando os lobos e minha sobrinha, quando o interfone tocou. Na verdade, todos já tínhamos escutado o carro na estrada.
Bella atendeu e obviamente era Elizza. Fred tomou o último suspiro e prendeu a respiração, parecendo até relaxado. “Boa sorte” – pensei. Queria ter os dons de Nessie para colocar meus pensamentos na cabeça de Fred. Por falar nisso, não conversei com ela sobre seu dom ter se expandido. Os passos de Elizza e Bella vinham para a cozinha.
-Olá! –Elizza irrompeu na cozinha com o seu habitual sorriso no rosto. Vi Seth cutucar Embry, com a expressão de: “Cara! Ela é bonita!” Então Embry lhe deu um beliscão. Ela cumprimentou todos com abraços, e quem não conhecia, bastou um aperto de mão. Isso fez Fred ficar mais aliviado.
-A casa está cheia! –exclamou a garota, parecendo contente empolgada. Seus bonitos olhos verdes brilharam de excitação. Tão humana. Sua voz de soprano evidente encheu nossos ouvidos, e toda a minha família estava na cozinha, fitando-a.
É encantador quando recebemos humanos em casa. Faz os Cullen se lembrarem de quando Bella vinha aqui. Na época eu não achava isso legal, mas não deixava de saber que era surreal também.
Percebi que Fred fitava Elizza encantado, e Jasper fitava Edward surpreso. Quase espantado. Ed deixou o canto de sua boca se erguer num sorriso. O que está acontecendo? Pelo que vejo não é algo ruim. Seria Fred conseguindo se controlar muito bem?
Alice, Bella e Ness carregaram a garota para o quintal, e escutei o barulho de neve sendo jogada. Corri para fora e me juntei à guerra novamente.
Minhas irmãs corriam humanamente em torno de Elizza e a enchiam de neve. Gargalhei ao notar que a garota estava numa disputa injusta. Eu peguei alguns pares de patins de gelo na garagem, e distribui para elas. Peguei um par que era levemente prateado.
-Aonde iremos usar isso? A neve está espessa, e não temos uma pista de patinação aqui.  –Alice tagarelou, mas então num rápido momento em que fitou o nada, sorriu animada.
-Mas nosso riacho está congelado. –expliquei. -Venham.
Seguimos para mais dentro do quintal, e logo achamos o riacho que serpenteava entre nosso terreno e o bosque que circundava a casa. Dançamos sobre o gelo por um bom tempo. Elizza dava alguns escorregões e levava Nessie junto para o chão. As altas risadas eram acompanhadas por movimentos graciosos de Alice, que às vezes fazia um dueto comigo em saltos no ar. Bella se arriscou ao fazer um trio conosco, mas nossa apresentação foi quase profissional. A situação estava cômica e agradável.
Os nossos irmãos e lobos ficaram observando a festa alguns metros atrás do riacho, e Fred parecia um pouco incomodado, porém mais relaxado que qualquer um como ele ficaria. Jasper e Edward juntaram-se à nós perto do riacho enquanto Emmett apostava com Leah e Fred o boneco de neve mais bonito.
Renesmee abraçava de tempo em tempo Jacob, para esquentar-se. Depois nos cansamos de brincar por tantas horas, e o vento soprava rigoroso. Elizza tremia de frio e toda a família entrou para a grande casa. Esme havia feito chocolate quente e observei algumas pessoas beberem enquanto Emm afagava meus cabelos.
Peguei um isqueiro na gaveta da estante e acendi a lareira na sala de visitas, onde estávamos. Edward fez um dueto com Carlisle, que havia acabado de chegar de uma emergência no hospital, meu irmão no piano e meu pai no violão. O resto de nós observava e cantava, sentados em um círculo torto perto do fogo crepitante da lareira.
Estava tudo ocorrendo muito bem. Uma tarde de inverno altamente agradável. E Fred estava me surpreendendo.
Nessie arrastou toda a família para fora novamente, após todos os que necessitavam de esquentar o corpo terem feito tal coisa, e fomos escorregar nos barrancos de neve que se formavam nas colinas, no bosque atrás de nosso quintal. Edward pegou várias tábuas de madeira largas, e distribuiu para a família. Caminhamos até a colina, o que não demorou muito, e começamos a brincadeira.
Joguei minha tábua no chão, sentando-me sobre ela e escorregando. Emm estava bem atrás de mim, na sua tábua, e gritava de emoção. Realmente isso era legal. O vento batia em meu rosto e fazia meus cabelos o chicotearem. Eu sorria largamente e meu “esqui” improvisado parou ao topar em uma pedra. Emmett empacou atrás de mim, e entre gargalhadas pelo engavetamento, resolvemos fazer isso de novo.
Eu estava subindo o morro de neve, no pé da pequena colina, quando minha visão periférica captou tudo. Elizza tinha se sentado em sua madeira e pegou embalo para descer o barranco, empurrando com os pés. Até o meio do caminho tudo ocorreu muito bem. Mas ela topou com uma pedra bem maior do que a que eu topei, e seu esqui virou com ela por cima. Elizza dava cambalhotas e descia descontroladamente morro abaixo. Sua tábua de madeira partiu-se bem abaixo de suas pernas, e vi que a ponta afiada havia cortado sua calça. Ela continuava a rolar em alta velocidade e olhávamos uns nos outros sem saber o que fazer.
Ninguém podia correr para ajudá-la, não humanamente. Começamos a descer o morro da colina em velocidade humana, temendo que ela percebesse qualquer movimento não natural ali. Ela parar de rolar quando enfiou suas mãos na neve, o mais fundo possível. Elizza levou a mão para a cabeça, tonta, e viu através do rasgo em sua calça. Foi aí que eu senti.
O cheiro de sangue inundou o ar.
Só pude notar Fred tentar se manter no lugar. Então ele nos fitou com dor pela sede. Para ajudar, Elizza ergueu a sua mão, tentando mostrar aos nossos rostos preocupados que estava bem. A mão dela estava cheia de sangue e esfolada. Então ela se virou de costas para nós, e fitou seu machucado. Por sorte ela não via quando Fred disparou como um louco na sua direção.
Eu prendi a respiração só para precaver, e disparei atrás de Fred como o resto dos irmãos, Carlisle, Esme e lobos. Renesmee, que estava mais próxima de Elizza, chegou primeiro e agarrou sua amiga pelas mãos, a arrastando para a casa mancando. Elizza não entendeu o que acontecia, e sempre que tentava olhar para trás Renesmee forçava-a a não olhar. Fred estava muito perto dela, e ele era rápido. Edward gloriosamente conseguiu encostar suas mãos nas costas dele, agarrando seus ombros. Mas Fred escapuliu e saltou na direção de Elizza. Por sorte ela ainda estava de costas e não viu o fato sobrenatural.
Carlisle pulou na frente de Fred e o empurrou para trás.
-Fred!  -meu pai murmurou. –Se controle, por favor. Pense em outras coisas. Não existe sede!
-Eu a quero!  -Fred grunhiu selvagemente. Seus dentes se trincaram. Sua voz soava dolorida e raivosa. Elizza já estava longe demais para ouvir, provavelmente já entrando na casa.
-Não, não quer! Pense em sua família Fred! Prenda a respiração. Por favor. –Carlisle pediu.
Fred fitou os olhos de Jasper, e parecia mais calmo instantaneamente.
-Isso. Muito bem, querido.  –Esme estava preocupada demais.
-Minha garganta… Está…  –Fred tinha levado a sua mão ao pescoço, na tentativa de parar o ardor.
-Eu sei. Dói. Não pense nisso!  -Jasper ajudou-o. Edward me fitou e entendi seu recado.
Eu corri até a casa, Renesmee não tinha muita experiência com ferimentos. Não que eu tivesse, mas ajudaria enquanto Carlisle não pudesse ir. Se Elizza não tivesse se machucado, Fred se controlaria.
Bella estava atrás de mim e disse que pegaria novas lentes de contato pretas para Fred, já que as dele acabaram de ficarem inutilizadas. Ele estava usando elas para disfarçar os grandes olhos vermelhos de Elizza, já que iria demorar um pouco para ficarem definitivamente dourados.
Escutei o barulho de água no segundo andar, ao chegar a casa, e fui até lá correndo. A respiração ainda suspensa pelo sangue.
-Ness!?  -bati uma vez na porta e entrei. Ela lavava os joelhos de sua amiga com a água do chuveiro e sabão.
-Sim tia, está tudo bem.  –ela estava preocupada. “E Fred, tia?”, seus pensamentos foram até minha cabeça.
-Está tudo resolvido por lá, Ness.  –falei de um modo que Elizza não entenderia de que assuntos nós tratávamos.
-O corte é fundo? –indaguei. -Talvez alguns pontos… Carlisle logo irá vir. Eles estão… Er… Juntando as madeiras e levando para a garagem.
-Não é fundo. Foi só um arranhão que sangrou. E não deviam ter parado de brincar por minha causa, estou bem.  –Elizza disse.
-Não foi por sua causa querida, realmente estávamos cansados. –menti. -E parece que esfriou mais. Além disso, ninguém mais quer se machucar como você.
Como se isso fosse possível.
-Hmm. Tudo bem. –Elizza sorriu, acreditando em minhas palavras.
Minha família logo estava em casa de novo, mas Fred e Edward não.
-Onde eles estão?  -murmurei para Bella quando fui para o primeiro andar.
-Caçar por perto. Fred queria estar cheio antes de voltar. Já entreguei as novas lentes à ele. Fale para Elizza, se ela perguntar, que ele teve que resolver algumas coisas do passaporte, e Ed o acompanhou.
-Tudo bem. –concordei, e só então me dei conta de que o sol já havia sumido.
Emmett estava de mãos dadas comigo e nos sentamos na sala para ver um filme, percebendo que a atmosfera tensa estava aos poucos se dissipando. Elizza dormiria aqui e a noite acabou de começar.
Seria um longo final de semana.

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