Boas vindas à criança e frustração
O carro de Carlisle era o mais veloz enquanto ele nos liderava pela estrada. Estávamos praticamente voando para La Push. Rachel e Paul poderiam estar precisando de ajuda no parto, e todos os Cullen estavam solidários. Leah nos ligou novamente, e disse que o nascimento demoraria um pouco, em torno de uma hora, já que Rachel não estava com uma grande dilatação. Seria tempo o suficiente para chegarmos lá.
A placa: Bem-vindo à La Push, fez os carros acelerarem-se ainda mais.
Estacionamos eles na entrada da casa de Billy. Alguém arfou alto, e isso foi seguido por um gemido de dor.
-Carlisle! Deve estar quase nascendo! -a voz de Ness soava preocupada. Seu sobrinho estava prestes a entrar no mundo. Vi meu pai arrebentar a maçaneta da porta quando ninguém a atendeu, e correr em direção ao antigo quarto de Jake, onde Rachel estava.
-Estão todos no quarto, ocupados demais para atenderem a porta. Rachel precisa de ajuda, por isso eles não a deixaram sozinha. –Edward explicou, seu rosto parecia tenso.
Meus pés estavam ultrapassando o sofá da pequena sala de Billy, quando senti o cheiro de sangue. Mais gemidos e arfados de dor, e um murmurinho de quem estava no quarto.
Então um chorinho de criança. O primeiro desta.
Este som tomou conta de mim.
Ser mãe. Deus, como eu queria! Sou tão ruim assim, a ponto de não poder ter um filho? A ponto de não poder carregar outro Emmett dentro de mim? Eu sempre me imaginei cuidando dele, ensinando a andar e falar. Assim como Bella fez com Renesmee, assim como Rachel e Paul fariam com esse bebê.
Porém só posso imaginar. Nunca irá se tornar material, realidade. Senti meus lábios se retorcerem, e um soluço brotar do lugar mais fundo de minha garganta.
“Pare Rosalie! Aqui não! Por favor!”. Gritei em pensamento para os sentimentos que se apoderavam de mim.
O que eu sentia foi sumindo aos poucos. Consegui ir acalmando minha angústia, pelo menos por agora. Eu não deveria ter vindo aqui! É masoquismo demais presenciar algo que tanto deseja, mas nunca terá! Sou uma idiota a ponto de parecer gostar da minha desgraça, de meu fardo.
Olhei para cima, levantando a cabeça, e vi Alice me fitando. Seu rosto estava sereno, seus olhos transmitiam compaixão, pena.
Odeio que se sintam assim por mim. Eles não têm culpa nenhuma por isso! Eu sou a estúpida na história. A idiota que quis se casar com o maníaco do Royce só para conseguir dinheiro! E deu nisso! Nem filhos eu posso ter hoje! Graças a minha ganância e egoísmo, de querer ter poder, atenção, beleza, e um marido que eu julgava perfeito só para mim!
Então notei que sempre quis demais, e que estava completamente enganada sobre Royce quando era tarde! Quando era uma humana em transformação!
Como um humano ridículo como ele conseguiu acabar com minha vida assim?
Engoli a raiva quando vi Emmett se sentar no sofá da sala. Pelo menos minha vida imortal tem uma luz. Sem ele, eu realmente seria o pior demônio na face da Terra. Isso era a única coisa pela qual eu podia agradecer à Royce. Ter me matado para me fazer conhecer meu verdadeiro amor.
Tomei coragem e entrei no quarto em que o bebê nasceu. Estava simplesmente abarrotado de “gente”. Seth, Leah, Paul, Embry, Quil, Carlisle, Esme, Bella, Jacob e Ness. Se algum deles se encontrasse em cima do guarda-roupa ou pendurado na parede não me assustaria. A casa era pequena demais para tantas pessoas. Billy teve o bom senso de ficar na sala, assim como Edward,Emmett, Jasper, Alice, Emily e Sam.
-Billy, ou sua casa tem o poder de se expandir, ou este pessoal está como sardinha enlatada lá dentro. –a voz de Sam falou, e vi da porta ele apontar sua cabeça para a direção do quarto em que estávamos. Risadas ecoaram na sala.
Não suportei ficar no quarto pequeno com todos aqueles lobos fedorentos e cheiro de sangue, então me sentei na cozinha. Longe de todos.
Mal tive tempo que começar a pensar em algo, porque escutei passos se aproximando.
Vi Leah passar com um menininho ensangüentado que chorava em seus braços, atrás dela, Jake e Ness carregavam objetos para banho. Segui-os até o banheiro, onde uma banheirinha estava com água, morna ao que me parecia. Leah colocou o bebê dentro, e Jacob passava sua mão levemente por ele para tirar o excesso de sangue. Ness preparava a fralda e a toalha, separando também uma roupinha para vesti-lo.
Fiquei assistindo aquela cena familiar, recordando-me de quando via minha amiga banhar seu lindo garotinho. Senti um soluço vindo novamente, mas o empurrei para baixo. Já chega!
-Segure seu sobrinho agora, Jacob. Irei jogar esta água fora. –Leah pediu enquanto entregava o bebê para o cão. A limpeza do pequeno havia terminado, e Jacob enrolou-o na toalha com a ajuda de Nessie. Eles deitaram a criança em uma espécie de colchão pequeno, em cima da pia. Jacob colocava as fraldas enquanto Ness admirava o lindo garoto.
-Espero que não se pareça com Paul… –Jacob murmurou para a criança. -Você seria um garotinho muito chato Noah! É esse seu nome, não é? –ele estava todo orgulhoso e contente.
Reparei mais em Noah, curiosa com as feições da criança. Sua pele era bronzeada como a de Jacob, seu cabelo era em grande quantidade e negro, os olhinhos tinham uma cor acastanhada como mel, era gordinho e saudável, mesmo sendo prematuro. Uma criança linda.
Nessie olhou para Jacob, com um estranho ar de dúvida. Ele balançou a cabeça, concordando com algo invisível para mim. Fitei a criança novamente, e Renesmee pegou-a dos braços de Jake. Os olhos dela me encararam, e fiquei surpresa quando Nessie me entregou o garotinho.
-Está tudo bem não é, tia? –ela sorriu fracamente. Minha sobrinha sabia muito bem como eu me sentia quanto a isso. -Leve Noah para o resto da família vê-lo, principalmente Billy, Paul e Rachel.
-Sim Nessie, está tudo bem. Irei levá-lo. –retribui com outro sorriso fraco. -Qualquer dia eu quero dar uma volta com ele, passear com esse garotinho. Posso?
-Claro, Rosalie! –Jacob respondeu por ela. -Rachel gosta de você, por incrível que pareça. Mas tem que mostrar para ela o filho primeiro… não é? -Jake me lembrou do que eu deveria fazer. Assenti rapidamente com a cabeça, constrangida.
Comecei a caminhar rumo ao quarto, e me senti mãe por um momento. Aquele corpinho pequenino e desprotegido nos meus braços. Sua pulsação forte e quente, seus dedinhos segurando o meu indicador com força, a respiração fraca e determinada, completamente serena. Encarei seu rosto, e seus olhinhos estavam fixos em mim, nos meus olhos. Então ele deu algumas piscadas demoradas demais, sua pequena boca se abriu em um bocejo, e as pálpebras se trancaram suavemente. Havia dormido.
Como é perfeito. Deus, por que não posso sentir isto? Por que!?
Adentrei no quarto em que Rachel havia ganhado Noah e entreguei-o para Paul, o pai mais coruja do mundo ao somente observar seu filho.
Caminhei até a parte de fora da casa, onde os Cullen, Seth e Leah agora estavam sentados. O gramado cheirava musgo, sinal de que devia ter chovido bastante por aqui. Emmett me deu um abraço reconfortante, afagando minha cabeça e aninhando-me em seus braços. Deixei um suspiro alto sair. Eu realmente ficaria perdida sem ele para me reconfortar.
Emmett sabia como eu me sentia, e entendia meu lado maternal. Eu era grata à ele por isso. Acho que nenhuma outra pessoa me suportaria como ele me suporta.
Dei uma olhada rápida ao meu redor, e coincidentemente captei Alice cambaleando para frente, parando de rir subitamente e ficando com a expressão vazia.
Os olhos de Seth se arregalaram. Não é todo mundo que está acostumado com as visões de Alice. Os olhos de minha irmã estavam mortos, o vácuo eliminando toda a vida deles. Ela os fechou, e demorou dois segundos para abri-los novamente. Edward modificou as feições de seu rosto, e me olhava preocupadamente.
Acho que o que Alice viu, envolvia a mim.
- O que foi? Qual premonição teve agora? -minha voz saiu quebrada.
-Vi você correndo de algo Rosalie, e ele perseguia você. Não pude ver o rosto, mas não é humano. Corre muito rápido. A visão estava embaçada. Falhava em várias partes. Não é como quando ela some com os metamorfos, ou quando fica estranha com Renesmee. Nunca tive uma visão assim. Ela foi… picada. Falha, como um filme antigo. –Alice explicou confusa.
-O cheiro de alguma coisa a incomodava, fazendo você tentar se controlar. Seria sangue? Você chorava. Qual o motivo para você chorar enquanto está sendo perseguida? –ela continuou a me contar, mais confusa que antes.
Absorvi todas as palavras dela. Eu não tinha tomado nenhuma decisão tão importante assim, a ponto de me fazer ser perseguida por alguém. Não estava nem pensando em caçar por agora, quanto mais sozinha. Estranho. Terei que avaliar todas minhas decisões cuidadosamente daqui para frente. Não posso correr este risco.
-Também acho isto, Rosalie. –Edward confirmou meus pensamentos. Emmett estava enrijecido ao meu lado, os braços ao meu redor protetoramente. -Não vá à nenhum lugar sozinha por enquanto. Espere outra visão de Alice sobre isso, e depois será livre novamente. É só questão de cuidado. Não temos que nos apavorar. Rosalie poderia estar caçando, e topou com algum vampiro nômade. A visão de Alice pode estar falhando por outros motivos. Talvez Rosalie estivesse perto de Renesmee, ou estava indecisa demais.
-Combinado querida? -Esme soava tranqüila, então não me preocupei tanto. Edward podia ter razão. Alice já viu algo nos perseguindo várias vezes, mas nunca se concretizaram, devido ao cuidado que tomamos depois que ela nos alertou. Ela sempre via nômades no território.
-Ok. Acho que não é nada grave. Alice veria com mais certeza. Pode ter sido um deslize meu topar com algum nômade enquanto caçava, por mais que eu não tenha decidido caçar por agora. –respondi.
-Isso explica porque a visão foi estranha. Não é nada grave mesmo, mas fique atenta. –Ed aconselhou. TUDO BEM.
–Ficarei. Bem, vamos relaxar pessoal. -encerrei o assunto pesado prometendo não caçar sozinha, então o clima voltou ao normal. Todos já estavam rindo de uma piada sem graça contada por Seth.
A visão de Alice realmente deveria ter sido de mim em uma caçada. Eu e minha má sorte de topar com um nômade. Porque eu não havia tomado uma decisão de sair pela floresta só para passear sozinha. Havia?
Se eu havia tomado, acabei de desistir. Não quero ser perseguida.
Passamos toda tarde na Reserva, e antes de voltarmos para Seattle fomos todos visitar Charlie. Sua aparência mudou um pouco desde os últimos meses que o vimos, mas nada que o deixasse velho demais, só um pouco mais maduro. Como sempre, o chefe Swan estranhava a sobrenatural sobrinha adotada de Edward, que ele mal sabia ser sua neta de verdade. E estranhava ainda mais o relacionamento dela com Jacob. E praticamente pirava ao ver que continuávamos sem envelhecer. Pobre Charlie.
Chegar a Seattle foi um alívio para mim. Nada como nossa casa, ainda mais num dia tão conturbado.
-Ah! -Carlisle e Esme gritaram juntos, como se tivessem ensaiado. –Paul nos chamou para almoçarmos na reserva amanhã, para comemorar o nascimento de Noah.
-É… –Emmett disse com uma cara sarcástica. –Vou adorar comer os bolinhos da Emily e experimentar o frango de Sue. Carlisle, vampiros não almoçam…
Edward e Jasper deixaram risadinhas escaparem.
-Aceitamos o convite, e iremos todos. –Esme continuou, e lançou um olhar cortante para Emmett. Ele revirou os olhos e ela segurou uma risada. –Querido, amanhã é sábado. Eu sei que só Ness e Jake irão comer. Mas é uma festinha, Rachel e Paul estão muito alegres. Além do mais, vocês podem brincar com os lobos depois.
-Ok. Fechado. –Emmett concordou quando Esme citou as palavras: brincar com lobos. Revirei meus olhos. Meu marido devia ter o comportamento infantil ás vezes graças á Esme, que o trata por várias vezes como uma criança de cinco anos.
Emmett era um vampiro marmanjo de setenta e cinco anos, e deveria ser tratado como um.
-Concordo plenamente com a Rosalie. –Edward se intrometeu, ganhando olhares confusos da família. EDDIE, só eu falo de Emmett, ok?
Ele me lançou um olhar assassino ao ler minha mente. Eddie não deveria ser seu apelido preferido. Meu irmão rosnou.
-Então… –disse Carlisle com o cenho ainda franzido de confusão. -Esperamos vocês arrumados amanhã. –ele sorriu e Esme concordou com a cabeça, autoritária como uma mãe.
-Gente! –Alice festejou e Edward deu um tapa na sua própria testa, rolando os olhos. Esme e Carlisle gargalharam. –Não vai fazer sol amanhã em La Push, acabei de nos ver na praia! Podemos ir até lá depois do “almoço”! Os garotos brincarão com os lobos por lá!
-Alice, nós iremos lá amanhã para confraternizar. Não para nos divertir na praia. Vocês podem brincar com os lobos na própria mata da Reserva. Outro dia nós vamos a La Push com a intenção de nadar e… –Esme tentou convencê-la, nada animada em arrumar suas roupas de banho. Como todos nós. Exceto Alice.
-Não Esme! Já que estamos lá, vamos aproveitar! Será um lindo sábado! Eu vejo isso! –ela tagarelou completamente brava por ser contrariada.
Edward deu outro tapa em sua cabeça. Emmett o ajudou, e deu um também. Obviamente Edward revidou com um soco nas costelas de Emm.
-Garotos… –Esme alertou. Eles pararam no mesmo instante.
-Quem não levar roupa de banho amanhã terá de se ver comigo! –Alice deu seu veredicto, ignorando o pedido de Esme e sendo autoritária ao extremo.
Baixinha demoníaca.
Eu teria que levar minhas roupas de praia. Não queria que Alice me torturasse com algo pior. Todos concordaram desanimadamente com a cabeça. Ela sorriu satisfeita.
Emmett subiu para o quarto com um olhar urgente no seu rosto. Então ele desapareceu no último degrau da escada. Resolvi segui-lo para saber o que era. Abri a porta de nosso quarto, e vi Emmett. Quer dizer… não era bem o Emmett.
Uma gargalhada estrondosa saiu de nós dois. Tranquei a porta com chave e o fitei novamente. Não conseguia parar de rir, e me dobrei sobre meu estômago.
-Que foi, Rosie? Eu preferia a fantasia de médico, mas aposta é aposta. Fiquei tão mal assim? Seja sincera… –ele perguntou sorrindo.
-Você não está mal. Só está hilário. –tomei fôlego e controlei as risadas.
Não acredito que ele realmente realizou essa aposta de quatro meses atrás. Na qual ele teria que se fantasiar de enfermeira. Achei que ele iria enrolar Jasper, e não cumprir o combinado.
Acho que errei feio. Demorou, mas Emm não burlou o trato.
Ele estava absolutamente cômico com aquele uniforme branco, com uma cruz vermelha no jaleco e segurando um estetoscópio. Mas… era meu Emmett. E Emm é sedutor e atrativo para mim de qualquer jeito.
Até de enfermeira.
E logo veio a madrugada, que resplandecia na lua que quase ficava cheia. Fazendo nossa brincadeira de hospital ir além do previsto.
***
Só consegui rabiscar esta frase em meu diário pela manhã:
“Noah nasceu, é o tipo de criança que sempre sonhei em ter. Minha família e eu iremos passar o dia em La Push, para comemorar seu nascimento.” O grafite da lapiseira afundou novamente no papel quando Alice berrou.
Estava óbvio que seria ela quem atrapalharia minha escrita.
-Se não descerem agora iremos perder o dia na praia! Não é bom chegar tarde! Andem logo! –Alice ordenou, como se oito horas da manhã fosse tarde. Sempre quando ela grita, fico me perguntando como uma pessoa daquele tamanho consegue ser tão insuportável.
Topei com Bella no topo da escada, e reviramos os olhos juntas. Não sou só eu que penso isto de Alice. Minha irmã mais nova gargalhou e me ultrapassou nos últimos degraus. Bella também era rápida. Emmett me pegou no fim da escada, balançando meu corpo no ar antes de colocar-me novamente no chão. Captei no seu olhar algo infantil e brincalhão, e tive certeza absoluta que ele iria se vingar de Alice. Por todo o escândalo de hoje.
Chegamos a La Push obviamente ainda de manhã, e um bando de lobos nos esperava sentados no gramado da casa de Jake. Um pouco estranho isso não? Os quatro patas estão esperando os amiguinhos sanguessugas para almoçar! Que confraternização linda! Chegou a ser patético por mim. De inimigos mortais, os Cullen e os Quileutes estavam bem próximos agora.
Edward deu um sorriso torto sugestivo, com certeza pelos meus pensamentos.
-Mas é melhor assim, ou não Rose? –ele indagou.
-Sim Edward, é melhor. Mas estranho demais. –respondi enquanto observava o movimento a nossa volta.
Emily saiu da casa acompanhada por Billy, e veio nos receber abertamente. Ela deveria estar ajudando Rachel. Até que elas eram simpáticas, bem diferentes de Leah, que quando resolvia entrar em crise, se revoltava com todos.
-Acho melhor nem pensar em falar isso Rosalie. –Edward arregalou os olhos. -Tufos de cabelo louro e sua cabeça seriam esparramados pelo chão se Leah ouvir isto. –ele advertiu, com o olhar fixo em mim.
Eu não seria louca de fazer isto, a não ser que quisesse me suicidar. E não estou nem um pouco a fim.
Edward pareceu se aliviar e juntou-se á Bella, então Emm entrelaçou nosso dedos enquanto caminhávamos para a casa.
Paul nos guiou até o vasto quintal atrás da pequena casa, e vimos que a alcatéia colocou uma mesa enorme no gramado, repleta de comida. O presidente dos Estados Unidos poderia almoçar aqui com todo o comitê dele, porque a comida não acabaria. De onde eles tiraram tantos frangos e vacas para fazerem este almoço? Os açougues da região devem estar felizes com o lucro exorbitante obtido pelos habitantes de La Push.
Só de enxergar os pratos e bandejas enormes de comida, queria vomitar. O cheiro era repugnante! Como eles conseguem digerir quilos daquela coisa recheada com legumes?
Os Cullen, exceto Ness e Jacob, sentaram-se ao redor da mesa, e ficamos observando o almoço ser devorado. Os únicos que comiam na nossa família não colocaram tanta comida no prato igual aos outros. Jake e Ness foram os que menos comeram, e isso porque eles repetiram duas vezes. Renesmee deveria na minha concepção beber mais sangue do que digerir essas coisas.
Sei que é falta de educação, mas não pude deixar de contar quantas vezes Quil repetiu a comida. Somando o número de vezes que ele colocou no prato tipos variados de comida, que formavam uma serra que encobria seu rosto, mais o número de vezes que ele repetiu só a carne, é um total de nove vezes. Só não consigo entender uma coisa:
Como cabe no estômago dele?
Resolvi desfocar meus olhos de Quil, e fitei Seth. Sua barriga musculosa apresentava uma elevação na altura do estômago. Ele comeu tanto a ponto de um calombo se formar em seu abdômen? Realmente não compreendo estes garotos-lobo.
É incrível que além de tudo, eu ainda fique com a parte ruim.
A cozinha para lavar era enorme. Pilhas de prato e copo se acumulavam em uma linha vertical crescente na pia. Chequei ao meu redor, na esperança de achar alguém que me ajudasse. Vi Leah com uma cara de quem está muito cheia para lavar tudo aquilo, Rachel estava ninando Noah, Sue em uma conversa empolgante com Charlie e Billy.
Estava podendo prever, mesmo não sendo Alice, que esta cozinha suja sobraria toda para mim. Minhas irmãs já estavam enfiadas na mata, correndo insanamente. Deveria ter ido com elas.
Meus olhos estavam começando a se revirar de ódio quando um anjo chamado Emily me ofereceu ajuda. Um coro interno de aleluia cantou em minha mente. Pelo menos não seriam somente minhas unhas que se estragariam.
-Seria injustiça de nossa parte, dos lobos… –Emily disse. –Se deixássemos a cozinha para você, Rose. Afinal, nem comer vocês comem. –sorri com a compaixão dela. Pelo menos existe uma alma nessa Reserva que faz o bem.
-Ande, Leah! –Emily não precisava arrebentar meus tímpanos ultra-sensíveis com este berro. Principalmente para Leah, que têm uma audição aguçada também.
Leah surgiu na cozinha com cara de preguiçosa, e de quem não estava querendo molhar suas mãos. Na verdade, patas. Emily fechou a cara para ela, e apontou para a pilha de pratos.
-Vamos, Leah! Não sou só eu que almocei, e estou ajudando Rose a lavar isto aqui. Ninguém se habilitou á fazer o mesmo, e os Cullen mal comem! Não fique folgada como todos os garotos lá fora. Não fazem nada, não ajudam em nada, e eu os carrego nas costas!
O rosto da loba se modificou em algo meio inesperado para mim, era o tipo de reação que por meses não vi Leah usar. Seus olhos ficaram mais intensos, um tremor percorreu sua mão, que estava fechada em punhos, e sua cabeça tombou de lado, deixando-a mais perigosa.
-Não me compare a todos os garotos lá fora. –Leah gralhou, a voz ácida. -Sou do bando de Jake, e não tenho que me parecer com seu marido e os seguidores dele! Só fui encaixada no bando de Sam, assim como Seth, pois Jake não mora aqui. Eu não o sigo, e não quero ser carregada por você e suas habilidades como eles são!
Vi que Leah estava medindo cada palavra, se controlando para não voar na garganta de Emily. Coloquei-me na frente da humana, e fitei Leah. Meu rosto aclamava, implorava por calma. Eu não queria ter que machucá-la, para ela não machucar Emily. Seus olhos se fecharam. Ela inspirou profundamente e saiu da cozinha com os punhos fechados. Edward e Jacob irromperam pela mesma porta que a loba saiu.
-Tudo bem por aqui? –os dois perguntaram.
-Sim, agora está. Não queria que Leah tivesse levado o que falei para o lado pessoal. –Emily se queixou. –Eu nunca melhoro as coisas para ela!
-Acalme-se Emily. Eu falo com ela. –Jacob prometeu, e os garotos saíram novamente.
-Acho que podemos dar conta disso sozinhas… –eu falei, e meus olhos caíram para os milhares de pratos na pia. Ou não…
***
Emmett segurava minhas mãos enquanto andávamos pela areia da praia, e pela primeira vez desde as últimas horas pude sentir meus dedos novamente. Prometi a mim mesma que nunca mais iria lavar pratos ou copos do almoço dos lobos. Era difícil fazer uma vampira ficar exausta, mas aquela louça conseguiu.
Nós fomos de grupo para a praia, todos os que estavam no almoço resolveram nos acompanhar também. Rachel carregando o recém nascido nos braços. Havia vários banhistas hoje, e a atenção de dois terços deles se voltaram para o enorme grupo que chegava ao litoral. Nós.
Montamos as barracas e estendemos várias cadeiras dobráveis ao longo da areia. Seth, Jared e Quil, mais Emmett, Carlisle e Jasper sentaram-se em círculo e começaram a tocar violão. Emily e Kim, imprinting de Jared, entoavam as canções.
O clima estava agradável. Senti-me feliz quando Emmett saiu da roda de violão e se vingou de Alice jogando meio quilo de areia em seus olhos. É óbvio que ela se irritou, e acertou Emm também. Assim eles começaram uma guerra oficial de areia. Alguns lobos entraram na brincadeira, e jurei a mim mesma que se um grão se quer me acertasse, os rabinhos deles seriam amputados.
As garotas, em sua maioria, estavam deitadas de bruço, e a cada grupo de rapazes que passava, eram arrancados assovios e cantadas idiotas.
Fitei o olho de um deles quando me irritei, e pude sentir que meu olhar causava medo e era psicótico. Vi que ele encarava minhas pernas, e também vi que ele se assustou quando Emmett deu um passo em sua direção. A mesma coisa aconteceu com Bella, Ness e Alice. Leah recebeu elogios, mas espantou os garotos com blasfêmias. Carlisle se manteve calmo quando Esme foi cantada. Nossa mãe se mantinha pacífica no meio de tudo aquilo, e chegava a ser cômico.
Os garotos também tiravam risadinhas de algumas meninas que passavam. E sinceramente, não me agradava nada que elas cochichassem de Emmett e eu tivesse que ficar em inércia constante.
Levantei um pouco, esticando minhas pernas e resolvendo entrar no mar. Alice tinha razão quanto ao clima de hoje, e o sol não brilhava, sendo tapados pelas nuvens nubladas. Porém o tempo era abafado. Aceitei que ela também tinha razão quanto a tarde ser legal, e a cada canção que os garotos faziam, eu não tinha dúvidas disso.
No mar, havia mais banhistas, todos humanos e lerdos. Alguns eram arrastados pelas ondas fortes, a ponto de ficarem sem as partes do biquíni ou a própria sunga. Tentei ignorar isto, enquanto meu olhar rodeava a praia. Emm logo entrou comigo, e nos divertimos quando nos afastamos da costa e mergulhamos no mar aberto.
Foi ainda mais divertido quando ele me apertou contra um rochedo, e ficamos por lá um bom tempo.
Ele havia capturado uma estrela do mar alaranjada, já morta, enquanto retornávamos para a costa. Daria para Esme para empalhar. Ela ficava feliz com coisas simples, e acho que por isso era tão cativante.
Minha visão periférica captou algo muito inesperado enquanto eu e Emm retornávamos.
Neste segundo, cheguei à conclusão de que os humanos realmente são lerdos, tão lerdos a ponto de não verem uma garotinha de em média seis anos de idade, gritar por socorro sendo afogada por ondas enormes.
Comecei a dar braçadas rápidas em direção dela, tentando manter um ritmo humano enquanto Emm fazia o mesmo. Pude ver que Edward e Alice também já estavam nadando na direção dela, com certeza pelos pensamentos de desespero e visões fúnebres quanto a garotinha. Ou pelo próprio escândalo dela, que pelo visto, só os vampiros e lobos escutaram.
Cheguei nela primeiro, agarrei-a pelos braços e puxei-a para cima. Seus olhos e boca se abriram instantaneamente, suplicando por um fôlego inexistente. Ela tinha os lábios roxos e pele pálida. Mais dois minutos naquele mar aberto e ela morreria.
Carreguei-a até a costa, com Emmett me ajudando á mantê-la consciente. Os banhistas só notaram agora o que havia acontecido, e nossa família nos fitava preocupada.
Carlisle a socorreu, e agradeceu à mim e Emmett, assim como Ed e Alice também. Os pais da menina chegaram até nós, agradecendo com abraços e apertos de mão. Lágrimas desesperadas saíam dos olhos da mãe.
Então a menina parecia ter ficado bem mais consciente que antes, e o pesadelo de sua família acabado.
Ó ódio tomou conta de mim.
Por que não prestaram atenção na garota? Ela podia ter morrido! A filha da mulher poderia estar sem vida agora! Os humanos não têm tanta noção de certas coisas?
Uma família. Que pode se gloriar todos os dias por ter uma filha. Não tem atenção o suficiente com ela.
Já eu, uma vampira, impedida por natureza de engravidar, me preocupo mais com a filha deles do que eles próprios! Se não fôssemos nós, os vampiros, a garota teria se afogado. Às vezes o mundo é injusto em algumas situações. E eu sou uma dessas situações injustiçadas. Queria muito poder modificar isto.
Nota da autora: achei melhor comentar no final do capítulo por hoje. Espero que entendam os sentimentos descritos por Rosalie. Ela é dita como uma pessoa que se importa muito com a beleza, e ainda sim angustiada por tudo. Eu procuro explorar os sentimentos que a fazem sentir mal, porque eles são os culpados por ela ser tão egoísta e preocupada somente com ela própria. Eu deixo as futilidades dela mais de lado, porque não as julgo parte de Rosalie, e sim conseqüências dos sentimentos dela. A beleza com a qual Rosalie é obcecada, não a levou à ruína. E sim os sentimentos que a tornaram tão dependentes da beleza. Dependente de como ela sonha ser a vida perfeita. Ela é uma personagem complexa, porém com um histórico de vida tão horrível, que todos os males nela são explicáveis. Obviamente Rose se acha uma mulher incrível, e se preocupa em ter toda atenção voltada á ela. Mas isso só acontece por sua infelicidade. Por seus sonhos serem impossíveis. Por seus sentimentos á levarem á isso. Tento mostrar ao máximo esses fatos. Abraço, e obrigada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário