quinta-feira, 16 de junho de 2011

Diário de uma imortal – Capítulo 14

Mantos, mentiras e dor
“Diário, estou aqui repassando todas as informações da viagem. É madrugada e já estamos novamente em casa, Seattle. Logo voltaremos para a escola e os preparativos da formatura estão começando a serem feitos. Estou responsável pela parte decorativa. Fred, o mais novo irmão, não irá à escola ainda. É claro que ele tem que aprender a se controlar bem primeiro. Não parece que será difícil para ele. Embry, Seth e Leah irão ficar toda essa semana aqui. Eu sei, é difícil aturá-los.”
Meu punho já estava doendo quando terminei de escrever este parágrafo. Fiquei a madrugada inteira relatando minha viagem, tanto para Allen Park, quanto para América do Sul. Tínhamos chegado a Seattle pela noite, com um vôo do Brasil até aqui bem tranqüilo. E amanhã o inferno que se chamava escola recomeçaria para nós. Fred estava animado com sua casa e família nova, e Alice já começou a decorar o quarto dele. Claro que seria ela quem arrumaria isso.
Eu estava escrevendo no meu diário sentada na cama, e ao meu lado Emmett estava todo chateado por eu não ter dado atenção para ele pela noite, e sim “Escrever doentiamente como uma garotinha as novidades da sua semana fabulosa”, foi o que ele disse.
Agora que eu decidi dar uma pausa na escrita, fechei o diário e passei minha mão em suas costas descobertas. Ele estava jogando algo no seu celular, para distraí-lo da madrugada que não passava. Emm virou-se rapidamente e encheu-me de beijos.
Eu sabia que não conseguiríamos acabar a tempo o que ele estava prestes a iniciar. O sol logo iria iluminar toda a cidade. E o despertador…
O relógio em cima do criado mudo vibrou.
-Não. Não. Não. Não. –Emm se torturou ao escutar o som estridente e me prensou na cama, fazendo uma espécie de corrente ou prisão.
-Deixa isso para de noite, Emm.  –falei com uma voz animada. Essa madrugada eu não pretendia colocar meu diário em dia.
-Fazer o que… –ele se queixou, afrouxando seu aperto sobre meu corpo. -Se você não tivesse escrito nada em seu diário, a noite teria sido ótima.
-Sem implicar. E nós já tínhamos derrubado algumas árvores no Brasil, se não se lembra.  –minha voz saiu raivosa e ele ficou quieto. Não queria ter sido tão durona.
-Relaxe, Emm. Sou sua essa noite. –murmurei arrependida pelo comportamento de antes. Ele segurou uma gargalhada e beijou meu pescoço.
-Eu sei. Se não abandonasse seu diário essa noite, eu iria te arrastar para dentro do bosque. À força. Entendeu? –ele sorriu diabolicamente. Eu concordei prontamente com a cabeça.
Fomos para a cozinha, checar se todos os que estudavam já tinham se levantado das camas.
Renesmee e Jacob já tomavam café da manhã. E pelo o que eu ouvia mais gente estava vindo para a cozinha. Exceto os lobos, que roncavam lá em cima. Ou melhor, Seth roncava.
Meus outros irmãos logo desceram, e nos sentamos na mesa, conversando a toa e observando Jake e Ness ingerirem comida humana. Embry acordou com os barulhos e não conseguiu dormir mais. Ele surgiu na cozinha bocejando e coçando os olhos, então se sentou ao meu lado.
-Nossa Jake, você já fez o colegial em La Push. Pra que ir à escola de novo? –Embry indagou quase indignado.
-Porque eu faço companhia para Renesmee, e quando eu me mudei para cá, não pretendia ficar como um vagabundo criando raízes no sofá. Já não bastam as coisas que Bella enfiou em mim, como aquele carro e dinheiro. Se não trabalho, vou estudar. –Jake sorriu.
Edward concordou feliz com tamanha maturidade de Jacob.
-É muito sensato.  –Embry continuou.  –Mas poderia fazer faculdade ao invés do colegial novamente, não acha?
-Farei faculdade quando Renesmee for fazer. –Jake respondeu sorrindo para ela, e Ness retribuiu com um beijinho.
-Tá bom, eu não irei discutir com você. –Embry desistiu. -Pessoas que estão apaixonadas é um caso sério.
-Claro que são!  –Seth surgiu sonolento na cozinha. Ele cambaleava de um lado para o outro, e não duvidava que pudesse bater a cabeça na parede a qualquer momento.
-Ah Seth. Devia estar dormindo! –Embry falou quase chorando. -Se for para ficar falando de Iara e seu belo par de seios, cai fora! Você falou sozinho sobre ela, a noite inteira! Não estou a fim de escutar frases românticas antes de o sol estar no meio do céu!
-Eu espero dar meio dia em ponto! Não tem problema! –Seth zombou Embry.
-Jacob.  –Embry avisou.  –Eu vou bater nele. Bater muito nele!
-Vai em frente.  –Jacob sorriu e apontou sua mão para Seth. –Escutei do quarto em que durmo Seth falando. Sei como se sente Embry. Pode bater. Você e Leah devem estar com muito sono por culpa dele.
-Até eu escutei! –Nessie reclamou. –Do meu quarto! Escutei Leah reclamando de Seth, mas ele não parava de roncar também!
Gargalhamos da cara que Seth fazia conforme as acusações eram feitas sobre ele. Carlisle, que estava duas cadeiras ao lado da minha, puxou minha mão gentilmente para conversar.
-Irá ficar o dia inteiro na escola hoje? –ele perguntou sorrindo. Era impossível guardar rancores dele. Por mais que essa vida fosse difícil para mim, eu entendia um pouco mais o que Carlisle fez para me ajudar. Quando olho para ele e Esme, sei que nem meus próprios pais poderiam me acolher tão bem assim. Eu gostava que ele não se sentisse mais tão culpado em relação a minha criação. Porque aprendi a amá-los apesar de tudo, e sei que eles retribuem esse carinho.
-Os alunos do terceiro ano… –ele continuou. -Que estão no grupo dos preparativos para a formatura, irão ficar. Fiquei sabendo porque vi um anúncio semana passada na escola, quando passei lá para pegar alguns documentos de vocês.
-Sim. –respondi quando notei que realmente teria que ficar até mais tarde na escola. Carlisle havia me lembrado disso. Por que minha memória é meio falha às vezes? -Vou ficar até o final da tarde lá. Mais pela noite estarei aqui sem demora. Emmett não vai ficar comigo, ele faz parte de outro grupo da formatura.
-Tudo bem. –meu pai sorriu, notando que havia me dado um lembrete. –Ligue-nos se precisar de alguma coisa.
-Sim. –respondi e segui meus outros irmãos escadas acima. Ness e Jake já estavam se arrumando para a escola, então logo nós iríamos sair também. Troquei de roupa rapidamente e arrumei meu cabelo. Emm já estava me esperando na sala junto com os outros garotos, que esperavam minhas irmãs e sobrinha.
Fred despediu-se de nós, e disse que não via a hora de poder estudar conosco. Ele ficaria aqui com Esme enquanto estávamos no purgatório.
Chegamos à escola e Emmett estacionou minha Ferrari. Ultimamente os irmãos não estavam pegando muita carona uns com os outros, e sim indo nos seus próprios carros. Talvez seja porque em Seattle, ter um Porsche ou um Aston Martin não é tão raro quanto em Forks. É claro que ainda chama a atenção, mas bem menos que em cidades pequenas.
Vi que a rotina no inferno iria começar novamente. Porcaria.
Eu, Emm e os outros andávamos pelos corredores indo rumo a primeiro aula, e nos separávamos conforme cada um achava sua sala. Estranhamente senti falta de alguém que não vi aqui hoje, mas minha mente não se deu conta de quem era. Perguntei-me quem seria a pessoa.
As aulas passaram até que rapidamente, talvez isso se devesse ao fato de que na maioria delas eu conversava com Emmett por bilhetinhos. No refeitório nos encontramos com o resto da família, e senti a falta da pessoa de novo. Edward respondeu aos meus pensamentos.
-É Michael Stone, Rosalie. –ele fez uma careta. –Sabe quem é ele, não é? O garoto que você quase atacou no parque de diversões. O que tem as emoções estranhas.
-Sei sim, Ed. – eu devolvi a careta. Como esqueceria daquele garoto literalmente louco e que se parecia Royce, com seus olhos azuis?
-Pois é. – meu irmão continuou. -Ele não veio na aula hoje, e pelo o que fiquei sabendo, não veio enquanto faltamos também. Uma garota disse que ele está doente. O sumiço dele anda sendo meio que comentado na escola inteira.
-Ah. Que bom que ele não veio, aquele garoto é insuportável. –eu gralhei enquanto me lembrava de seus atos. -Não sei porque senti justamente a falta dele.
-Também não sei.  –Edward sorriu e voltou a conversar com Bella. Emm tratou de me distrair também, conversando sobre os grupos de formatura. Alice e Jasper estavam jogando algo on-line pelos celulares, e Nessie e Jacob falando sobre os próximos testes.
O dia de aula terminou para todos, e minha família foi para casa. Só eu fiquei em meio aos humanos do meu grupo de formatura. A parte da tarde seria muito trabalhosa. Por que Emmett não foi escolhido para ficar no mesmo grupo que eu!? Assim estaríamos juntos agora. Bem, talvez seja porque ele não parece entender de decoração.
Eu e os humanos do grupo nos sentamos no ginásio e fizemos uma lista do que comprar para a decoração. Escolhemos o que seria o tema, a comida e ligamos em praticamente cada estabelecimento comercial de Seattle ligado a festas para comparar preços. Minha orelha estava quente de tanto falar ao telefone. Algo realmente incrível para minha pele fria.
Algumas meninas brigaram quando o assunto foi: objetos de decoração e suas cores.
-Rosa! Ficará mais elegante.  –gritou uma.
-Claro que não! Fica meio garotinha! E os meninos não gostariam! Alguma cor mais unissex é melhor, por exemplo: vermelho, verde piscina. –esbravejou a outra. Então outra gritaria começou.
-Fica muito chamativo! -berrou novamente a outra. Meus tímpanos estavam doendo. Tive que me enfiar no meio da discussão.
-Olha aqui as duas! –eu pedi, num tom quase rude. -Se for para ficar gritando, vão fazer isso fora daqui! Que tal uma votação entre os alunos do terceiro ano para decidir a cor?
-Concordo com a Rosalie.  –um garoto sensato do nosso grupo adquiriu minha opinião. E elas acabaram aceitando apenas por causa dele.
Já deveria ser sete horas da noite quando terminamos tudo. Eu estava exausta por ficar tanto tempo discutindo os mínimos detalhes, e medindo cada parte do ginásio para ter certeza de quantas mesas alugaríamos ou para checar o tamanho da pista de dança. Eu sabia que o sol já havia ido embora lá fora.
Havia me esquecido de ligar para Emmett avisando a demora, tudo porque fiquei com muita irritação e coisas na cabeça, devido às garotas tagarelas. Eles deveriam estar preocupados. As garotas e o menino bonzinho que me ajudou estavam fechando o ginásio e discutindo sobre quem entregaria a chave.
Eles não podem fazer nada sem se encrencar!?-minha mente gritou furiosa.
Revirei meus olhos e tomei a chave das mãos de uma delas.
-Deixa que eu levo na secretaria. –falei notavelmente irritada. -Acho melhor andarem logo em irem embora, o pessoal dos cursos noturnos logo irão chegar.  –comecei a caminhar rumo à secretaria e me despedi dos humanos somente acenando. Eles pegaram algumas caixas com modelos de decoração e anotações e foram embora pelos fundos. Cheguei à secretaria para entregar a chave do ginásio, e abri a porta num baque alto demais.
-O que deseja querida? –uma senhora novata de óculos e cabelo prendido em um coque me perguntou, assustada com o alto barulho que fiz ao entrar. -Os cursos vão começar daqui trinta minutos ainda.
-Não faço curso senhora, eu estou lhe entregando as chaves do ginásio. O grupo de formatura estava lá.
-Oh sim. Desculpe-me. – ela sorriu. -Está frio lá fora, cuidado ao ir sozinha para casa. Você está sem agasalhos.  –ela disse preocupada com minha situação.
-Ah tudo bem. Não precisa se preocupar. Até mais.  –acenei com a cabeça e saí da sala rindo da senhora. Ela está preocupada com uma vampira sentir frio.
No estacionamento só havia meu carro. As pessoas que faziam cursos noturnos normalmente estacionavam no outro pátio. Faltava menos de dez passos para chegar até minha Ferrari. A noite estava fria e a neblina tomava conta do ambiente, enquanto meus passos ecoavam alto pelo lugar vazio. Senti-me num cenário macabro de filme de terror.
Que irônico. Porque o vilão do filme poderia ser eu mesma.
Quando eu apertei as chaves do meu veículo para as portas se destravarem, meu celular tocou em um alerta vibratório irritante. Cacei-o pela minha enorme bolsa e quando o achei, o número era de Alice. “Eles devem estar preocupados com minha demora.”-pensei comigo mesma. Com coisa que Alice não pode me ver! Apertei o atender.
-Oi Alice. –minha voz era tranqüila.
-Saia já daí, Rosalie! Fuja! Rápido, por favor! Vi isso agora! Não dará tempo de chegarmos aí nesse instante! Saia Rose!  -sua voz exalava pânico em cada sílaba.
-Alice o que está acontecendo!? –falei enquanto abria a porta da Ferrari rapidamente.
-Rose fuja! Depois lhe explic…  – senti um cheiro adocicado diferente com o forte vento que bateu em meu rosto. Então meu nariz captou mais cheiros. Quantos deles? Enfiei a chave na ignição, desesperada para sair dali, quando duas mãos agarraram meu braço e o celular caiu num baque antes mesmo de minha irmã continuar a explicar.
“Rosalie? Rosalie! O que aconteceu? Rosalie?!” – ainda pude escutar Alice gritar no telefone, enquanto eu era carregada para algum lugar com mãos de ferro me apertando.
Tentei olhar para o rosto de quem era, mas estava muito escuro até mesmo para meus olhos, e sua roupa era negra. Para ajudar, estávamos agora dentro da mata que rodeia a escola, tapando ainda mais minha visão enquanto eu era levada. Puxei meu braço violentamente de suas mãos e ele apertou ainda mais forte.
-Sou um recém criado, tola. –a voz de anjo encheu meus ouvidos. O meu braço esquerdo estava livre e o usei para esmurrar o estômago do vampiro. Ele se encolheu por um instante, fitou meu rosto com desprezo e sorriu ironicamente. Eu odiava isso.
Senti a borda dos meus olhos se avermelharem. Quem é esse idiota que pensa que pode me carregar para qualquer lugar? Com minha mão que estava livre torci seus dedos que prendiam meu braço. Ele gemeu e pude sentir os ossos estalando.
Nesse momento ele me soltou, e comecei a correr em direção ao carro.  Agachei-me instantaneamente quando ele estava na minha frente de novo. Uma risada gutural saiu de seu peito. Eu queria matá-lo de raiva que sentia. Saltei em sua direção, mas ele não estava mais lá. Eu ainda estava no ar quando suas mãos passaram por minhas costelas e me empurraram para baixo.
Senti a grama se afundando com o impacto e minhas costelas vacilando entre estalar ou permanecerem intactas. Coloquei-me de pé atordoada, e ele andava em círculos ao meu redor. Eu imitei seus movimentos, rosnando violentamente enquanto praticamente dançávamos.
-O que você quer?  -praticamente gritei. Eu sabia que logo Alice e o resto da família iriam vir me ajudar. Mas até lá, eu teria que me manter viva sozinha.
-Não sou eu que quero. Só fui mandado para fazer isso. Eles querem algumas informações.   –nesse exato momento as nuvens saíram da frente da lua, e um breve clarão passou pela mata, me deixando ver melhor o rosto do vampiro. Seus olhos eram de um vermelho vívido, a pele branca e o cabelo castanho penteado bagunçadamente. Ele usava um casaco negro que ondulava atrás dele.
-Eles quem, seu imundo!? -falei isso com mais nojo do que eu poderia expressar.
-Os Volturi.  –gelei quando ele citou o nome. Meu corpo já frio havia virado uma verdadeira geleira imóvel. O que eles querem agora?
-Por que eles querem falar comigo? -fiquei enrijecida de desespero quando pensei em mim sozinha com a guarda. Onde estava minha família!? Eu nunca havia topado com os Volturi enquanto estava sozinha!
-Não é com você que eles querem falar. –ele respondeu. -Porém você era a mais fácil. Sem dons, e estava sozinha. Vamos dizer que… Você foi escolhida para ser a primeira interrogada dessa vez.
-O que eles querem saber?  -eu berrei de ódio. Algum poder agora me fazia falta.
-Pergunte para eles.  –o vampiro apontou com o queixo para o leste. Fitei quatro mantos negros adentrando pela mata. O veneno que corria pelo meu corpo parou instantaneamente. Meu corpo queria correr, mas eu não conseguia. E seria inútil.
Jane, Alec, Demetri e Félix estavam na minha frente agora, seus mantos parando de esvoaçar assim que eles pausaram a caminhada.
-Olá. Já faz um tempo, não é?  -a voz monótona de Jane soou.  –Bem, gostaria que nos contasse um ocorrido. Hmm, você é Rosalie, não é?
-Sim, sou Rosalie. –murmurei, controlando o pânico e ódio na minha voz. -Eu não vou falar nada. Explique-se com Carlisle se quiser. Pode se encontrar com o resto de nós daqui a pouco. Alice sabe que vocês me pegaram.
-Não pretendo conversar com todo o clã. Só você já basta para informar a verdade. E sem dons, será mais fácil de te convencer. –ela sorriu sadicamente e eu engoli seco.
-Dê-se por insatisfeita então. Não abrirei minha boca sem todos aqui. –eu gralhei incrédula comigo mesma. Não sei de onde tirei coragem para falar assim com Jane. Ela sorriu maquiavelicamente.
-Garota insolente você é. Mas sempre é hora de aprender os bons modos. –ela deu uma risadinha e fixou seus olhos em mim. Com um sorriso macabro continuou me fitando. -E aprendemos com castigos.
Então meu corpo queimava.
Deitei-me no chão com um baque surdo, e me debatia contra ele violentamente. Minhas mãos agarravam terra e grama tentando fazer a dor parar de correr pelo meu corpo. Minha garganta ardia muito, e pela primeira vez não era de sede. Mas de dor. Um fogo pior do que o da transformação se apoderou de mim, e devorava meus ossos. Os meus gritos agudos com certeza poderiam ser ouvidos no estacionamento vazio. Sorte que estava vazio.
Por que não me matavam de uma vez? Meu coração queria saltar para fora numa tentativa de não arder. Gritei ainda mais quando a queimação pareceu corroer meu cérebro. Minha mente estava em chamas. Meu corpo parecia virar poeira diante daquilo. Minha respiração incomodava. O ar era ácido e meus pulmões pequenos demais. Senti meu corpo se embolar e rolar pelo chão enquanto eu gritava ainda mais agudo. Todo meu corpo só sentia chamas e muita, muita dor.
“Tia agüente. Estamos chegando. Papai já pode te ouvir. Tia Alice vê melhor o futuro agora. Estamos chegando!” Os pensamentos com a voz de Nessie inundaram meu cérebro em chamas. Como ela conseguiu isso, sendo que não estava me tocando? Fiquei grata mesmo sem uma explicação.
Eu gritei ainda mais quando a dor triplicou. Meu próprio veneno parecia agir junto com as chamas. Pensei se na verdade, eu não estava virando cinza em uma fogueira. Maldita Jane!
Esforcei-me para enviar meus pensamentos à Edward em meio a dor. Nessie disse que ele já podia me ouvir.
“F-faça B-Bella por seu escudo e-em n-nós quando e-estiverem a-aqui. Se Fred e-estiver junto d-de v-vocês não d-deixe e-ele usar s-seu d-dom. Já n-não basta o-os Volturi descobrirem q-que n-nós agora t-temos um n-novo irmão. F-faça Bella c-colocar o escudo. P-por f-favor.”-pensei com toda força enquanto meus dentes batiam incontrolavelmente uns nos outros. Quando Jane iria parar!?
Eu esperava desesperadamente que Edward tivesse me ouvido.
Então a dor cessou de repente.
Levantei-me do chão tonta enquanto voltava a sentir meus membros sem a queimação. Se pudesse eu desmaiaria. Estava sem fôlego. Demetri puxou meus cabelos e eu forcei seus dedos para trás. Não havia conseguido me libertar de suas mãos ainda. Ele ganhou, eu estava debilitada.
Fiquei de joelhos quando ele me chutou no estômago e fez sua mão passar por meu queixo, e a outro no topo de minha cabeça. Ele iria arrancá-la se eu não falasse o que os Volturi queriam?
Fechei meus olhos aguardando o inevitável. Eu nunca falaria nada. Nunca deixaria minha única família sair prejudicada. Então Demetri me mataria.
Emmett”, eu pensei quando senti as mãos do Volturi forçando meu pescoço e sua boca se abrindo para me perguntar alguma coisa.
-Tire as mãos de minha Rosalie! -a voz de Emm ecoou raivosa e grave na mata. Um rosnado atormentador saiu dele assim que o enxerguei no meu campo de visão. Ele estava a poucos metros na minha frente.
Demetri largou minha cabeça e puxou minha mão com uma força que poderia decepá-la. Senti o osso estalar e a lesão começar a doer. Pelo menos era melhor do que o dom de Jane.
-Você pediu para que tirasse a mão dela, grandão. –disse Demetri para Emm com hipocrisia. Fitei meu anjo particular, e Emmett estava sendo impedido por Fred e Jasper de pular no pescoço de Demetri. O resto de minha família irrompeu na mata agora, logo atrás dos três.
Bella afirmou com a cabeça, me olhando. Eu sabia que seu escudo estava nos protegendo agora. Jane ou Alec não poderiam agir.
-O que você quer, Jane? -a voz de Carlisle era ácida.
-Bem, Demetri andou rastreando vocês lá de Volterra. –ela respondeu ríspida. -E vocês não estavam em Seattle, onde estão vivendo agora. E sim em uma cidade pequena, se não me engano, Allen Park. O que estariam fazendo por lá?
Meu estômago gelou. Se Jane descobrisse que nos encontramos com lobisomens, e que sabemos que eles pretendem atacar, ela nos mataria. Mesmo nós não tendo os apoiado.
-Estávamos caçando. –Carlisle mentiu totalmente convincente. -Os animais em Seattle estão mais difíceis de serem encontrados.
Não podíamos falar a verdade. A guarda de Aro faria de tudo para fazer disso um motivo e nos exterminar, por mais que soubessem que não era um motivo.
-Ah sim. E depois o que me falam da Amazônia? Também foram caçar?  -Jane disse sarcástica, como se as mentiras fossem vazar uma hora.
-Sim. E também fomos buscar um novo membro da família. E desde quando nos rastreiam com Demetri?  –Carlisle disse provocando.
-Posso notar o novo vampiro. –Jane respondeu fria ao fitar Fred. –Nós sempre checamos onde estão alguns clãs amigos, caro Carlisle. É comum. Desculpem-nos por fazermos toda essa bagunça por hoje, então. Aro nos mandou vir até aqui, porque da última vez que nos encontramos, com o problema de Renesmee, quando estávamos voltando para casa sentimos a presença de verdadeiros lobisomens naquela região que visitaram. Porém tínhamos mais coisas para fazer do que caçá-los. Quando Demetri rastreou vocês em Allen Park, deduzimos que vocês fizeram algum tipo de parceria com eles, o que é estritamente proibido, e agiriam contra nós. Indo para a Amazônia reunir mais clãs, como fizeram aquela vez. –ela explicou tudo monotonamente.
-De nenhuma maneira, Jane. Só fomos para Allen Park caçar, e nunca faríamos parceria com os selvagens Filhos da Lua.  –Carlisle soou sério, editando a parte de que realmente encontramos lobisomens por lá. E a parte de que eles pretendem atacar os Volturi.
-Esta garota, é Renesmee? -ela apontou com o queixo para minha sobrinha. Alec cerrou os olhos para Nessie.
-Sim. –a voz de Edward foi puro ácido.
-Hmm. Muito crescida e bela. –Jane zombou como se fizesse alguma piada interna. Edward rosnou baixo.
-Isso não é da sua conta.  –Jacob gralhou.
-Pelo que vejo…  –ela disse com ironia, quase surpresa com a insolência de Jake.  –Vocês ainda têm aquela ligação estranha com metamorfos. Mas espero que saibam que ligação com verdadeiros lobisomens seja além de proibido.
-Sabemos Jane. Não será preciso citar todas as regras de convivência por aqui. Quem é o garoto que pegou Rosalie? Não era necessária toda a brutalidade.  -Carlisle novamente foi ácido e direto.
-Oh, ele é um novato. –ela sorriu. –Chama-se Daniel. Acho que Alice deve ter se incomodado com o dom dele. Que é de retardar ou anular o dom de outros vampiros enquanto ele quer. No caso, Alice só teve uma visão quando já estávamos aqui, e não quando a decisão foi tomada. Chegar atrasada é um pouco incômodo não é, Alice?
Minha irmã a ignorou, controlando a vontade de puxar os cabelos de Jane até não restar um único fio.
-Achar vampiros com dons não anda sendo tão raro ultimamente. –Carlisle ponderou. Obviamente se lembrando de que agora também tínhamos Fred e seu estranho poder.
-Aro também está se perguntando o porquê disso. –Jane foi fria. -Por exemplo. Se Daniel quisesse anular o escudo de Bella sobre vocês, como agora.
Senti a estranha sensação de proteção sumir. Edward arregalou os olhos e rosnou para a guarda. Bella nos fitava incrédula. Jane manteve a expressão divertida. Ela estava brincando com nós. E poderia ter anulado todos os poderes dos Cullen se tivesse pedido para Daniel antes. Eles poderiam ter vencido a briga.
-E se quiséssemos atacar agora, já que vocês estão desprotegidos… Não é Alec?  -ela disse e ele sorriu. Alec soltou um longo suspiro.
Então eu não enxergava mais nada. Não sentia cheiro algum ao meu redor e tateava o escuro. Escutei ao longe minha família gemer em protesto ao também sentir o mesmo. Minha audição também estava sumindo. Maldito seja Alec!
-Nós conseguiríamos. Nem o escudo de Bella resolveria seus problemas. –Jane completou seu discurso de: Quem agora é mais forte? Os Cullen voltam a ficar sem poderes. Os Volturi podem ganhar de vocês. Não se metam com a gente.
-Jane. Pare com essas brincadeiras. Faça Alec parar.  –Carlisle ordenou. Se a guarda quisesse nos aniquilar agora, poderiam. Só não fariam isso, pois ainda não haviam encontrado um motivo, um deslize nosso.
-Calma Carlisle, é só uma amostra do poder de Daniel. –Jane gargalhou de excitação.
“Fred, por favor, você prometeu.” Edward implorou murmurando. Minha audição não estava tão boa, mas consegui escutar isso. “Fred, não use. Por favor.”
Só então entendi. Não! Fred não podia usar seu poder para parar Daniel ou Alec. Aro iria adorar saber que temos um novo dotado na família. Os Volturi não podiam pensar que voltamos a ser mais fortes que eles! Eles nos odeiam!
-Jane… Por favor, pode parar? –Esme soava preocupada.
A bruxa deu outra gargalhada alta. Não sabia onde ela estava, pois minha audição ainda estava confusa, os sons se misturavam, e eu não enxergava.
-O novato, como se chama? –Jane perguntou, ignorando o pedido de Esme e ainda nos mantendo sob o dom de Alec. -Pelo que vejo nos olhos dele, não tem a mesma alimentação que vocês.
Além de tudo, Jane não poderia ficar sabendo que Fred fez parte do exército de Seattle. Ela iria querer matar ele, como Bree. Os Volturi não ligaram para Jasper, por mais que soubessem que ele também veio de exércitos. Aro deveria achar que não seria motivo o suficiente nos mandar matar porque temos só um ex-vampiro de exércitos. Mas dois vampiros, seria o suficiente. Ele poderia nos acusar de estar montando um exército também. Que ridículo.
-Chama-se Fred. E o ajudaremos na alimentação. Jane, por favor, pare com isso! -Carlisle estava saindo do tom normal de voz e parecendo raivoso com o dom de Alec, nos incapacitando.
“Fred, não faça isso”. Os pensamentos de Nessie encheram minha cabeça, ela deveria estar conseguindo notar o que seu mais novo tio pretendia. E ela estava repassando para todos os Cullen o problema. Seu dom expandido me deixou intrigada, mas minha mente me lembrou que isso não interessava agora.
-Fred! -Edward gritou e na mesma hora todos os meus sentidos voltaram. Fitei a minha frente e os Volturi tinham os rostos retorcidos em caretas de repulsa.
Fred havia usado seu poder.
-O que significa isso!? -Jane berrou e tentava nos atacar furiosamente ao movimentar suas mãos. Ela estava lutando contra a repulsa que nosso irmão causava a todos eles. Pelo que notei seu poder não funcionava com Fred ativando o dele, nem o dom de Daniel. Fred era o dom mais poderoso de nossa família então? Já que o de Bella conseguiu ser ultrapassado pelo novo Volturi? Isso era incrível.
-Quem está causando esta coisa idiota? Como se atrevem!?  -Félix estava furioso.
-Fred, pare. Por favor. Não queremos briga.  –Carlisle tentou convencê-lo.
-Eu não confio neles.  –Fred estava esforçando-se para falar, seu rosto muito desconfiado.
-Eu sei querido. Mas por nós, pare. Eles não irão ativar seus poderes novamente. –Carlisle lançou um olhar cortante para Jane. Que confirmou com a cabeça, o rosto retorcido como se fosse vomitar. Além de causar repulsa à ela, Fred ainda repeliu os dons dele. Simplesmente inacreditável.
Os Volturi lentamente voltaram seus rostos como antes, e notei que Fred havia desativado seu dom.
Jane o fitou encantada. Sabia que isso não prestaria.
-Belo dom garoto. –ela sorriu. -Ninguém havia falado que você possuía um. Estavam com medo de quê? Não iríamos seqüestrar o garoto! Não deseja juntar-se a nós, Fred?
-Jane, ele é meu filho agora! –Carlisle gritou, a raiva estava presente em seus olhos. Isso deixou os Cullen amedrontados. Nosso pai realmente estava contando os segundos para não atacar ninguém. -Não quero que se intrometam nas decisões dele! Já conseguiu a resposta do que queria, e desejo que vão embora!
A conversa com os Filhos da Lua deve ter feito Carlisle odiar os Volturi tanto quanto Bella e Edward.
-Aro manda lembranças à você, Carlisle.  –Jane sorriu, atendendo a ordem de meu pai. Como eu queria estrangular aquela garota e sua ironia!
-Mande ótimas saudações para ele, Jane.  –Carlisle foi irônico, demonstrando sentimentos muito sarcásticos e aversão à Aro. Ele realmente estava com raiva.
-Ele iria adorar saber que foi tão gentil.  –ela retribuiu a dose de ironia. Se eu fosse Carlisle, teria saltado nela nesse instante. Por sorte não sou ele.
Notei Alec confirmando algo com Daniel. Então Daniel fitou Edward e meu irmão se confundiu notavelmente. Daniel saltou em direção de Renesmee.
-Edward! -gritei para avisá-lo, já que ele não pôde ver os pensamentos dos Volturi, devido ao dom de Daniel que estava ativado. Essa jogada deles foi bem planejada.
Não foi tempo o suficiente. Daniel puxou Nessie para cima de seu ombro, então Bella voou em sua direção. Mas foi impedida por Jane, que ativou seu dom sobre ela. Minha irmã não podia se defender, graças ao seu escudo desativado por Daniel. Malditos!
Bella sentia o que eu senti. Soube disso enquanto ela gritava na grama. Edward transformou-se em um selvagem ao presenciar a filha sendo levada e a esposa em dor.
-Não Fred, não faça isso de novo. Não é uma briga, não irá ser! -Edward gritou e Fred se comia de ansiedade para ativar seu dom novamente. Edward! Deixe Fred! Só assim você pegará Nessie e ajudará Bella! Não conseguiremos sem isso! Daniel é bom!
Jacob transformou-se em um lobo possesso, e antes de ser cegado por Alec, atingiu as costas de Daniel. Vultos corriam pela minha frente e eu e o resto de meus irmãos ficamos paralisados. O que podíamos fazer com Daniel e seu dom!? Só Fred pode nos ajudar!
Daniel aproveitou que Jacob estava sob o dom de Alec e o jogou de suas costas, dando antes uma mordida no enorme lobo.
Oh não”, gemi ao notar a gravidade do problema.
-Carlisle, o veneno! Jacob irá morrer! –Jasper gritou. Ao nosso redor o caos continuava, com Bella gritando de dor, Nessie com Daniel, e Jacob agora no chão.
Então Fred ativou seu dom novamente. Bella saiu do chão enquanto Jane se retorcia em repulsa, tentando se afastar. Agora eles estavam sob nosso poder. Sob o dom de Fred.
Bella e Ed pularam em Daniel e pegaram Renesmee, enquanto o vampiro juntava-se ao lado da guarda, em repulsa. Jane fez sinal para o resto dos Volturi partirem, e entre gemidos de nojo e a estranha sensação que os Cullen já haviam sentido, ela tentou falar.
-Realmente Carlisle. Já conseguimos a resposta do que queríamos. E isso não virará uma briga. Aro tem que primeiramente saber o que aconteceu por aqui.
Então os mantos desapareceram na mata, andando lentamente conforme Fred mantinha seu dom ativado sob eles. Podíamos ter acabado com a guarda dos Volturi agora se quiséssemos. Por tudo o que fizeram hoje. Mas tínhamos problemas maiores.
Fitei a grama na minha frente. Um grande lobo castanho avermelhado se debatia nela. E outros três lobos uivavam desesperadamente.

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