País tropical e seres estranhos
Estava sentada no colchão ao lado de Nessie vendo um filme de comédia. Deveria ser em média quatro horas da manhã. O calor era constante aqui. A sorte era que a casa de Zafrina era ventilada.
Na verdade, não estava vendo o filme. Eu estava refletindo sobre o quanto nossa família mudou desde a transformação de Bella. Por mais que eu fosse contra, hoje enxergo com clareza que foi bom. O que realmente é sinal que muita coisa mudou.
Para começar, meu relacionamento com ela era como eu tinha com Alice. A considerava minha irmã, e a defenderia como sendo parte de nossa família. Coisa que eu sempre relutava quando ela ainda era humana. Hoje, nossos laços são muito mais afetivos. Claro que o nascimento de Nessie também ajudou muito. Mas se Bella não tivesse engravidado, e se tornado uma vampira após o casamento, eu acabaria aceitando-a como irmã também.
Então vem meu relacionamento com Edward. Eu nunca tinha tido paciência para ele. Ainda mais quando ele defendia a humana que Bella era. Depois de tudo, hoje sou tão ligada à ele quanto Emm sempre foi. Sinto-me aliviada por saber que posso contar com Ed para tudo hoje. Até mesmo Jasper mudou depois que Bella entrou na família. Seu autocontrole ainda é fraco, porém muito mais forte que antes. Fora o fato de que ele não acha seu dom um fardo tão grande assim. Alice ficou uma garota ainda mais contente, pois sua melhor amiga era agora imortal e seu marido muito mais controlado.
Emmett foi o único que não mudou nada. Na verdade, ele não precisava mudar. Não havia algum defeito nele que não fosse à inocência e espírito de luta. Como sempre, um eterno brincalhão. Ele só ficou ainda mais próximo de Edward, fazendo seu melhor amigo e irmão de uma segunda esposa. Eu me sentia muito mais leve depois que Bella se transformou. Ainda me sinto odiosa e superficial muitas vezes, mas em comparação com antes, posso ser dada como outra pessoa. Eu era uma Rose um pouco mais tolerante, menos superficial e mais amigável. Nessie me ajudou muito nesses sentimentos bons também. Sua aura de criança e meu espírito de tia coruja me fizeram melhor.
Não posso negar que Bella ajudou e muito na melhora da família que Esme e Carlisle construíram. E ela fez Ed sair das trevas em que vivia para mostrar-se tão… Irmão quanto é hoje. Até mesmo Carlisle não se sente tão arrependido por ter nos transformado. Ele sabe que hoje vivemos como uma família, e que o sonho de Esme e o dele não poderia ficar melhor. Meu pai não se sente mais tão culpado em relação á ter me criado, até mesmo porque eu própria disse á ele que estava encarando isso. E que se não fosse Carlisle para ter me salvado, nunca conheceria Emm. Sinto-me grata por ele nesse ponto. Não que eu ainda não sonhe em ser humana e ter uma vida normal. Mas o que tenho agora é isso, e devo viver com isso da melhor forma possível. Eu tenho Emm e uma família que me rodeia, eu me sinto melhor em vários aspectos. Minha vida está melhor que antes. E chega á ser suportável viver eternamente como uma vampira.
E eu sabia que superando meus outros problemas, seria ainda mais feliz com os maravilhosos Cullen.
Renesmee ainda prestava atenção no filme, e não queria dormir agora porque fez isso durante o vôo de vinda para o Brasil. Entediada com a comédia, olhei para o meu lado, com vários outros colchões enfileirados no chão do quarto de hóspedes, e os lobos dormiam neles.
-Tia olha isso! –Ness murmurou e apontou para a TV. Fitei pesarosamente o vampiro do filme. Sim. Esse filme realmente era de comédia.
Um personagem de histórias em quadrinhos estava o matando com uma estaca, quando o vampiro a tirou dele e enfiou no herói, que ficou estirado no chão. O vampiro teve a capacidade de escorregar na água benta ao sair correndo e cair no sol, virando poeira.
-Eu não sou obrigada a ver isso. –gralhei enojada. Nessie riu do meu mau humor com pegadinhas infames contra vampiros.
-Onde o resto da nossa família está? E cadê as vampiras Amazonas, Huilen e Nahuel? -Nessie perguntou. Só agora se dando conta de que não estavam aqui.
-Estão lá fora, Renesmee. Seu pai falou algo como…
-Caçar!? Estão caçando sem mim e você? –ela quase gritou.
-Não, Renesmee. Zafrina e seu clã não se alimentam de animais. E seu pai falou algo como conhecer os arredores da residência de Zafrina. Relaxe, eles não vão caçar.
-Hmm… –ela gemeu desanimada. Porque Emmett inventou de seguir seus irmãos!? Ele podia ter ficado comigo na floresta!
Um barulho alto ecoou no nosso quarto de visitas, e me perguntei o que seria isso. Renesmee cutucou meu braço e me fez olhar na rede de balanço ao lado de todos os colchões.
-O que Seth está fazendo? Se transformando em um carro!? -eu perguntei irritada. Seu ronco aumentou ainda mais. Jacob, que dormia no colchão ao lado da rede, pegou seu travesseiro e enfiou a cabeça por baixo dele.
-Por Deus! Façam Seth parar com isso! -ele implorou. Nessie segurou uma risadinha. Eu não tocaria um dedo meu em Seth para acordá-lo. Olhei para minha sobrinha e ela negou com a cabeça. Embry e Leah ainda estavam adormecidos, e então não podíamos contar com eles.
Seth puxou o ar novamente e tapei meus ouvidos. Como seus pulmões não saíam do lugar!? Está ficando insuportável ficar trancafiada no mesmo quarto que ele. O ar saiu de seu peito com um assovio. Suas mãos e pés começaram a mover-se rapidamente na rede, fazendo ele se embolar e roncar ainda mais alto.
Realmente insuportável.
-Seth sofre de epilepsia ou convulsões, Nessie? -gralhei impaciente. Porque ele estava se movimentando daquele jeito? A rede balançava violentamente com ele. Seth iria cair se continuasse a fazer suas pernas e braços se mexerem assim.
Ele era sonâmbulo?
Renesmee se dobrou por cima de seu estômago para rir. Cheguei de fininho perto da rede de Seth, só para checar se ele estava vivo ou em condições normais. Ness continuou sem se mover no colchão em que estávamos.
Fitei o rosto dele e a rede simultaneamente. Fiquei enojada. Aquilo que molhava o tecido da rede era baba?
Afastei-me por instinto daquilo e Seth movia-se doentiamente. Renesmee chorava de rir ao observar o bolo que ele formava junto com a rede.
Que doença essa garoto tem?
-Ele está sonhando, Rosalie. –Edward apareceu no quarto com uma expressão divertida, escondendo uma gargalhada, e abraçou Renesmee. E o que me fala da baba? Não é raiva, é!?- pensei para Ed me responder. Virei-me para olhar o rosto dele.
Assim que dei as costas para Seth e observei a resposta que Edward me daria, um estrondo acordou todo mundo que dormia. Virei meu rosto novamente para ver Seth, que estava no chão. Ainda dormindo e babando como um cachorro raivoso. Os movimentos dos membros começaram novamente.
Renesmee recomeçou a chorar de rir e Edward não conteve as gargalhadas. Leah me fitou incrédula quando observou que Seth voltou a roncar, mesmo no chão, que estava parcialmente molhado de baba.
-Que porcaria é essa? -ela perguntou coçando os olhos sonolentos. –Ele me acordou!
-Seu irmão tem problemas em manter a saliva dentro da boca enquanto dorme? -Jacob ignorou a pergunta dela e fez a sua. Ele parecia irritado com o lobo mais novo de sua alcatéia. Comecei a rir também.
Leah, num ato raivoso, passou a mão na pantufa de Nessie e a mirou na cabeça de Seth. Ele estava no meio de um ronco ensurdecedor quando o calçado atingiu sua testa. Os movimentos dos membros dele pararam subitamente, e ele acordou em um pulo, ficando de pé.
-Quem está atrás de mim agora? O que foi!? -ele perguntou com os olhos estatalados.
-Primeira coisa, Seth! -Leah esbravejou. Eu não pude evitar gargalhar dela. –Limpe sua baba, ninguém é obrigado a conviver com isso! Segunda, ninguém está te perseguindo além de seus próprios membros! Com o que estava sonhando!? Terceira: você irá dormir com a mula-sem-cabeça se continuar a roncar assim!
-Ah… Era um sonho! -Seth corou de vergonha enquanto limpava sua boca com uma camiseta que pegou no chão.
-Ah que nojo! -Embry berrou e tomou a camiseta de Seth. –Cara! Comprei-a faz uma semana! Agora tá cheia de baba!
O resto de nossa família e Fred que também era meu irmão agora, Nahuel e Huilen entraram no quarto ao escutar o escândalo. Eles se divertiram ao saberem da história, e Zafrina nos desejou uma boa madrugada.
-Vocês fiquem à vontade. –ela disse antes de ir para seu quarto. -Se quiserem sair da casa e ficar em seus arredores podem ir, ok queridos?
-Obrigado, Zafrina. –Carlisle respondeu. –Boa noite para vocês também. Seth não vai mais sonhar que alguém o persegue. Fiquem tranqüilas.
Elas riram enquanto o lobo corava e se ajeitava novamente na rede de dormir. Nahuel e Huilen escolheram os colchões em que queriam ficar acomodados no quarto e puxaram assunto com Jazz e Alice. Meus outros irmãos que não dormiam arrumaram algo para a distração.
Emmett sentou-se ao lado de Nessie e eles ficaram jogando no notebook dela até amanhecer. Algumas vezes ele me lançava um olhar de: em breve ficaremos sozinhos na floresta, querida.
Eu sorria em resposta enquanto a animação me agitava.
***
Estávamos na mesa da cozinha para os lobos e híbridos tomarem o café da manhã, que desta vez foi preparado por Kachiri. Carlisle puxou assunto com Fred, que conversou com Jasper a noite toda.
-Então Fred, você sabe que depois que irmos embora, sua alimentação será radicalmente modificada, não é? –Carlisle perguntou educadamente.
-Sim, ontem pela manhã despedi-me com a última refeição humana, caçando com Senna, Zafrina e Kachiri. –disse ele orgulhoso. –Espero que seja realmente o último que morreu por mim.
-Confie em você, e será querido. –Esme garantiu.
Jasper parecia ainda mais feliz, e Alice estava radiante por isso. Ele se daria muito bem com Fred. Ambos foram criados com as mesmas intenções e tem um pouco de dificuldades com sangue humano.
-Que tipo de humanos vocês caçam? -Emmett perguntou para Senna com o ar curioso.
-Somente os que estão em estado de saúde ruim, ou pessoas ruins. –Senna sorriu sadicamente. -Caçamos muitos madeireiros ilegais que cortam árvores nesta região. Ou também os mandantes de escravidão infantil, que trazem menores de idade para trabalhar em minas por aqui.
-Vocês são diabólicas. –Emm gargalhou. –Por acaso estão ajudando o governo a colocar as leis em prática? Exterminando todos que não as cumprem?
-É quase isso, Emmett. –Zafrina riu. –Mas não caçamos no território um pouco mais ao Norte. Fizemos um combinado com uma tribo do local.
-Essa tribo é de humanos, não é? Eles sabem da existência de vocês, para terem feito um pacto? -Bella ficou mais curiosa que Emm.
-Eles sabem de nossa existência, porém não contam para ninguém porque também guardamos o segredo deles. –Kachiri respondeu. -A tribo tem uma grande porcentagem de metamorfos.
-O que? -Jacob engasgou com o suco.
-Sim, Jacob. –Zafrina gargalhou. –Vocês de La Push não são os únicos do mundo. Normalmente as histórias indígenas não mentem. Essa tribo conta esta lenda por séculos, e é passado de pai para filho. Muito disso se deve pela tradição de outras tribos que geraram essa. Os Ticuna e Mapuches têm descendentes nessa tribo que falo, e as histórias deles foram adaptadas.
-Que… Estranho. Vocês imitaram nosso antigo trato com os lobos de La Push? -Esme soou brincalhona.
-Não, é um pouco diferente. –Kachiri continuou a história. –Não somos inimigos como vocês eram. Somos… Parceiros. Eles sabem de nossos hábitos alimentares, então combinamos que não caçaríamos no território deles, e de que guardaríamos seu segredo. Assim como eles guardam o nosso. Porém eles não são tolerantes com outros nômades que passam por aqui. Só conosco e quem é nosso amigo. Na verdade, acho que não brigamos até hoje graças a um garoto de lá, que gosta muito de nós.
-Ah, tem mais uma diferença. –Senna interrompeu. –Somos bem vindas lá, e eles aqui. Diferente do tratado antigo de vocês em La Push. Contando que não cacemos nada lá, tudo está em paz. E por curiosidade, existe uma híbrida que vive com eles.
-Como assim!? -Nessie e Nahuel gralharam juntos.
-Acho que o Alfa do bando deles teve uma espécie de… Imprinting com a híbrida. –Senna fez uma careta. -Só que para eles esta atração tem outro nome. Não me recordo qual. Como Lisbeth, este é o nome da híbrida, vivia sozinha e tinha se mudado para cá havia pouco tempo, cedeu aos encantos que sentia por Jaci, o Alfa. Desde então eles vivem juntos. A tribo tem uma parte dos moradores humanos também, e eles sabem no que alguns outros moradores de lá se transformam. Nós guardamos o segredo dessa tribo, e eles guardam o nosso. Simples, não?
-Mais alguma coisa que queira falar Senna? -Edward a olhou fixamente. Sim, havia. –Como, por exemplo, o porquê do tal garoto ser o motivo de paz entre vocês para dividir o território?
-Hmm, tudo bem. –Senna sorriu sem graça. –A híbrida, Lisbeth, e Jaci, o Alfa. Eles tiveram um filho. E o garoto gosta muito de nós. Do dom de Zafrina. Devemos muito a esse menino por toda essa paz entre nossas espécies.
Renesmee arregalou os olhos a ponto de assustar alguém. Jacob parou de respirar por um momento.
-Sim, é possível. –Senna respondeu sem que ninguém perguntasse, vendo a incredulidade nos olhos de todos. –O crescimento e desenvolvimento físico dos híbridos podem até parar após a maturidade. Mas ao que parece, a reprodução deles não é afetada. Pode ser porque a parte humana ainda existe e se modifica, por mais que eles fiquem parados no tempo após o crescimento total.
-Quer dizer que Renesmee pode ser mãe mesmo após a maturidade? Mesmo após parar de crescer e ficar parada no tempo? -Edward estava surpreso.
-Parece que sim. –Zafrina sorriu. -Assim como as irmãs de Nahuel também podem. Assim como Lisbeth foi. E Nahuel pode ser pai também, assim como você, Edward. Essas coisas biológicas funcionam bem estranhamente para nós.
-Isso é legal. –Jacob tentava esconder sua felicidade em poder ser pai de um filho com Nessie.
-Mas e os Volturi? -Carlisle indagou.
-Eles não sabem de nada. Até onde sabemos essa criança de Jaci e Lisbeth é única. Pode parecer bizarro, mas dizemos que ela é napolitana. –Senna riu ao falar isso. –Pois tem uma parte humana, vampira e uma de metamorfos.
-Realmente bizarro. Como ela se comporta? Cresce normalmente? -Carlisle estava interessado.
-Sim. –Senna voltou a explicar. -Na verdade hoje já é um garoto de 15 anos, logo atingirá a maturidade e não se desenvolverá mais. Assim como Nahuel. A gestação dele não durou muito, e a mãe sobreviveu afinal é uma híbrida. Lisbeth foi forte. O veneno de vampiro não matou o gene de metamorfo, nem transformou o gene humano. Por isso apelidamos de napolitano. São três partes que não se misturam. Um mistério para todos nós. O garoto chama-se Rudá. Fora do corpo da mãe, desenvolveu-se rapidamente assim como Nessie. Porém ele aparentava ser um recém nascido após o parto, e não uma criança maior, como Renesmee parecia ser. Rudá possui veneno, mesmo a mãe não o possuindo. Eu sei que é estranho, mas acho que se deve pela necessidade, já que havia um gene de metamorfo…
-Além de veneno… –Zafrina tomou o lugar da irmã. –Ele tem as mesmas características de um híbrido. Como velocidade, força. Mas não como as de um vampiro. E o mais impressionante…
-Já até posso adivinhar. –Seth sorriu brincalhão. –Ele se transforma em lobo, não é?
-Sim. –Senna riu.
-Cara! Sério?! Eu estava brincando. Que demais! –ele festejou enquanto nossos queixos caíam. Aro nunca poderia saber de tal espécie. Claro que ele a cobiçaria, e se não a tivesse, mandaria exterminar. Leah deu um beliscão no braço do irmão.
-Podemos visitá-lo? Você disse que não há problemas com vampiros que são seus amigos por lá. –Carlisle perguntou cauteloso.
-Sim. –Zafrina disse empolgada. -Mas teremos que ir correndo, ok? Não há estradas para lá.
-Tudo bem. –nos levantamos da mesa para arrumar a futura visita.
-Er… -Fred pela primeira vez abriu a boca sobre o assunto. –Ele se alimenta de que?
-Rudá se alimenta de sangue animal, mas também come comida humana. Assim como Ness e Nahuel. –Kachiri respondeu como se fosse a coisa mais comum do Universo um garoto que se transforma em lobo e tem uma parte humana beber sangue animal.
Logo estávamos de saída para a visita. A mata se fechava cada vez mais enquanto corríamos selva a fora, e os galhos pontudos batiam em nossos braços, quebrando-se. Então começamos a caminhar depois de muita corrida, já que Kachiri nos falou que estávamos perto do território da tribo.
Senti um aroma diferente quando uma brisa soprou na minha direção. Tinha algo humano nele, mas também era demasiadamente doce para um humano, e havia algo de… Repugnante nele também.
-Rudá! -Kachiri gritou de felicidade quando um vulto passou por entre algumas árvores na nossa frente. Um lobo gigante saltou na direção dela e lambeu seu braço.
Que nojo. Elas realmente eram bem vindas aqui. Ele saltou para a floresta novamente.
-Mais um que eu não consigo ver o futuro. Que droga! -Alice pestanejou sozinha.
-Consegue ver o nosso futuro, já que estamos com híbridos, lobos e um “napolitano”? -Esme perguntou rindo da histeria da filha.
-Se eu focar nas decisões de um de nós, isoladamente, sim. Fica um pouco embaçado, mas é melhor que nada. Já nas decisões do grupo, que envolvem todos, não. –ela fez um bico enorme.
Fitei as árvores novamente, na procura do lobo. Então ele não era mais um lobo. E sim um garoto moreno, sua pele de um marrom mais claro e bronzeado. De cabelo castanho escuro na altura do queixo, com olhos dourados penetrantes. Era bem musculoso, assim como Embry. E havia algo ligeiramente humano nele. Talvez a expressão calorosa ou o leve rubor nas bochechas cheias. Parecia ser um garoto agradável. Ele estava vestindo uma espécie de bermuda, porém mais rasgada e curta que o habitual.
-Olá! –Rudá festejou para as vampiras Amazonas. -Pelo que vejo trouxeram visitantes, Zafrina. –ele sorriu delicadamente para nós, e seus olhos percorreram todos nossos rostos. Eles pararam em mim por mais tempo, deixando-me quase constrangida com aquele olhar dourado focado no meu. Emmett passou a mão em minha cintura, num ato quase possessivo. Edward não conteve uma gargalhada.
No que Emmett havia pensado?
Rudá falava inglês, porém com o sotaque de sua língua marcante. Alguma palavra que nós não entendíamos Zafrina iria traduzir.
-Vocês sabem falar português, não é? –Senna perguntou aos Cullen. Todos nós concordamos com a cabeça. –Por gentileza, podem conversar nessa língua então? É porque alguns que vocês conhecerão aqui não falam inglês como Rudá fala. Podíamos traduzir, mas será um pouco mais demorado.
-Tudo bem. –Carlisle respondeu, deixando um sotaque inglês na sua frase em português.
-Não se preocupe, grandão! –Rudá disse falando sua língua, e o sotaque que antes tinha marcado sua primeira fala, mostrou-se grande aqui. Ele fitava Emm. -Eu já tenho uma garota.
Emm concordou com a cabeça lentamente, e como conversaríamos em português agora, ele pareceu se lembrar das palavras certas para montar a frase que queria.
-Melhor assim, Rudá. Meu nome é Emmett. –ele disse sorrindo largamente, orgulhoso por falar em outras línguas fluentemente. Rudá gargalhou para ele, então apertou a mão de Emm com um sorriso travesso que foi retribuído.
Pelo que vejo irão se tornar grandes amigos. Rudá me parecia travesso o suficiente para gostar de Emm e Seth.
-Zafrina! -uma garota de cabelos cacheados e negros adentrou onde estávamos. Seu corpo era lindo como o seu rosto. E sua pele não reluzia no sol assim como a de Rudá ou Nessie. Já o resto dos Cullen estava espalhando milhares de pequenos brilhantes iluminados pela mata. Ela tinha os braços envoltos em um garoto que aparentava ter a idade de Jacob, e era musculoso como ele. As feições de Rudá era uma mistura desses dois rostos.
Lisbeth e Jaci, eu deduzi. É engraçado como os pais de Rudá perecem ser tão novos quanto ele. Assim como é estranho saber que Nessie é filha de Ed e Bella, que parecem mais irmãos dela.
-Trouxeram amigos, queridas? -Jaci perguntou para Kachiri. O rosto bronzeado dele e a voz grave me lembravam Sam. Ele e as Amazonas pareciam realmente viver em paz, por mais estranho que fosse.
-Sim, estes são os Cullen. Queriam conhecer Rudá. – Zafrina disse sorrindo e apontou para Nessie. –Renesmee é híbrida como Lisbeth, e seu namorado é um metamorfo como você, Jaci. Eles tiveram um imprinting, a mesma atração que você sentiu por sua esposa.
-Ah. Sei como é garoto. –Jaci piscou para Jacob quando ele deu as mãos para Nessie. -Posso lhes pedir só uma coisa? -ele fitou Carlisle, acertando o líder dos Cullen.
-Claro que pode. O que quiser. –meu pai respondeu confiante e calmo.
-Eu sei que vocês não são daqui, e com certeza são da América do Norte. –Jaci franziu o cenho, e fez uma careta que transmitia medo. -Os Volturi sempre vão lá, então, se toparem com eles algum dia, não comentem nada sobre nossa vida aqui, sobre Rudá. Temo que eles tentem fazer algo. Sabemos um pouco sobre Aro e seus dons. Por favor, se encontrarem-se um dia, o despiste. Tudo bem?
-Claro. –Carlisle respondeu prontamente. -Não queremos acarretar problemas para vocês.
-Obrigado. –Jaci sorriu e puxou Lisbeth para seu lado. –Essa é minha esposa, já devem ter ficado sabendo um pouco de nós. E Rudá, como as vampiras Amazonas o apelidaram, meu filho napolitano. –ele fez uma careta e Rudá riu, tirando risadinhas de nós.
-Essa é minha família. –então Carlisle apresentou cada um de nós, e também o bando de Jake. Jaci ficou encantado com os mais novos metamorfos que ele conheceu. E Lisbeth parecia animada com Nahuel e Renesmee, os novos amigos híbridos dela. –Achei Rudá um caso único, e intrigante. Como… pode?
-Eu e Lisbeth também nos perguntamos por isso. –Jaci respondeu e rimos da expressão dele. –Até onde sabíamos, Rudá seria mais humano que tudo. Porque Lisbeth tem parte humana e eu também. Mas então foi diferente. O gene de metamorfo dele “explodiu” logo. Mas ainda sim ele se desenvolve, como se fosse um híbrido. Vai parar na maturidade. Na verdade, Rudá é um mestiço que se transforma em lobo.
-Realmente incrível. –Carlisle sorriu e fitou Jake e Nessie.
-Então Zafrina… –Lisbeth falou com um ar de divertimento. -Parece que seus amigos têm hábitos alimentares mais saudáveis que seu clã, não é? Os olhos deles são como os meus e os de Rudá. Até seus amigos que não moram na América do Norte, e que moram na fronteira, o Nahuel e Huilen, são vegetarianos. Temos uma boa parcela de vampiros ou híbridos sendo bonzinhos. Não querem ser também?
-Hmm, obrigada Lisbeth. –Zafrina mostrou a língua para ela. –Jaci, você pode apresentar o resto do seu bando á eles? Jacob e o bando dele estão curiosos.
-Com certeza, venham. –ele nos arrastou para dentro da mata e logo chegamos em um vilarejo.
No local circulavam alguns humanos, assim como Zafrina explicou, conscientes do que alguns da tribo eram. E conscientes de que também tinham que guardar o segredo das Amazonas com quem dividiam o território.
Os vampiros “carnívoros” haviam caçado, por sorte. Tudo bem que as Amazonas não podem caçar aqui, mas se não tivessem se alimentado antes, se controlar ficaria mais difícil. Ainda mais Fred, que era o mais novo de nós.
Seguimos Jaci e ele nos guiou até perto de um rio. Alguns garotos, em média cinco, saíram da margem em que estavam conversando e nos receberam. Um deles, havia pescado um balde inteiro de peixes. Todos aparentavam serem irmãos do bando de Jacob. Eram bronzeados, altos e morenos.
-Fartura de comida é bom, Cauré! –Jaci festejou. -Podem pescar mais um pouco? Temos companhia para o almoço. Um grupo de metamorfos e dois híbridos a mais. E não aceito não como resposta deles.
-Tudo bem. Os lobos e híbridos podem comer aqui. –Senna falou apontando para o bando de Jake, Ness, e Nahuel. Antes do bando de Jaci ir pescar mais, eles se apresentaram e conversaram animadamente com os novos amigos lobos.
-Vou chamar Iara para ajudar na pescaria. –Rudá disse em meio às conversas. -Ela não fez nada o dia todo. Vocês parem de falar um pouco agora, vão pescar. Minha barriga está roncando. Logo venho ajudar.
Então Rudá saiu em busca da tal garota, e os lobos de La Push e seus mais novos amigos locais se entreteram na pesca. Os Cullen, as Amazonas, Huilen e Nahuel ficaram ocupados de outras tarefas. Não queríamos ficar só vendo os outros trabalhando.
Logo Rudá voltou com uma garota linda. Devia ser Iara. Ela tinha pele morena, cabelos lisos e negros até o ombro e com um corpo esbelto. Senti seu cheiro e vi que ela era como Leah, uma loba. Só que parecia ser menos raivosa que a fêmea do bando de Jake.
Leah saltou na direção de Iara e puxou assunto com ela, não acreditando que havia encontrado mais uma fêmea de sua espécie. Emmett estava imerso na tarefa de pescar um peixe Dourado gigante.
Reparei com curiosidade enquanto arrumava a espécie de fogueira, com muito cuidado, que Edward dobrava-se de rir com Jacob e Ness sentados ao seu lado. Perguntei-me o que era.
Não precisei nem falar direito. Fitei Seth ao lado de Leah. Ele praticamente repetia o que estava fazendo enquanto dormia. Babava. Percebi que ele tentava conversar com Iara tanto em português como em inglês. Os dois estavam alternando os idiomas conforme não entendiam o que falavam. Os dois eram os menos fluentes em duas línguas aqui. Seth inclinava-se para frente, tentando chamar a atenção dela.
Vi que ele tentava se mostrar para Iara de todas as formas possíveis. Ajudava Rudá e os outros garotos na pesca, sempre que podia exibindo seus músculos. Seth lançava seu cabelo curto, mas liso e bonito, em todas as direções.
Exibindo sua franja como uma top-model. –eu pensei. Iara olhou algumas vezes para ele, e Seth lançava piscadelas.
Sentei onde Ed estava com sua filha e Jake, e me dobrei em meu estômago de tanto rir junto com eles.
-Jacob, ensine Seth a conquistar garotas. Isso é grave! -Bella falou entre risadas quando passou por nós com alguns gravetos para a fogueira.
Seth correu na nossa direção e sentou-se ao nosso lado, fitando Iara ao longe enquanto ela trabalhava em assar os peixes já capturados. Eu, Ed, Bella, Ness e Jake ficamos olhando ele.
-Que foi? -Seth ficou assustado. –Não fiz nada de errado, Nessie está mentindo!
-Ah! O que eu fiz!? -Ness queixou-se incrédula pela acusação.
-Tudo. E sempre sobra para mim! Ei… –disse Seth baixinho, murmurando. –Vocês viram? Aquela garota linda?
-Oh sim, a que você está paquerando desajeitadamente. Vimos sim. Vimos você babando por ela também! –Jacob falou bem alto.
-Cala a boca! -Seth deu um tapa na cabeça de Jake e tirou gargalhadas de nós.
-Viram o corpo dela!? –Seth continuou a murmurar, ciente de que ela poderia escutar, já que não é humana. Emm estava vindo na nossa direção, e fitava Seth como se ele fosse o pior imitador de Dom Juan na face da Terra.
-É realmente lindo, Seth. –eu disse com uma cara enojada. -Mas eu não ficaria atenta a todos os detalhes.
-Er… Seth. –Bella fez uma careta. -Não reparo muito em bumbum de garotas. Nem de garotos.
-Não repara em garotas, nem garotos, e nem no bumbum do Edward! Mas você repara na respiração dele – Seth acusou com o rosto retorcido em confusão. Não conseguimos não rir disso. -Nas olheiras de Edward! Nos diamantes reluzentes da pele de Edward! Poupe-me, vocês vampiros são engraçados! Veja se eu vou reparar na respiração da Iara!?
Então a garota lançou um olhar constrangido á Seth. Ela havia escutado esse escândalo. Ele praticamente enterrou sua cara no meio da fogueira em que os peixes assavam por vergonha.
Saí de perto deles para não acabar rindo mais e piorar a situação. Sorte de Seth é que Iara não era a namorada de Rudá. E o menino napolitano fez bem em não apresentá-la. Embry também está solteiro.
Saí caminhando para perto do rio, onde Emm comemorava seu segundo Dourado gigante. Esse peixe daria carne para uma grande família. Uma família enorme. Por fim segurava minha barriga que estava doendo com tantas gargalhadas do nosso lobo Dom Juan.
***
O resto da tarde passou com os Cullen, lobos, vampiras Amazonas, Nahuel e Huilen conversando com o pessoal de Jaci. Eles realmente eram tolerantes em muitas coisas, contando que ninguém caçasse no território deles. Eram boas criaturas sobrenaturais.
No pôr do sol retornamos para a casa de madeira das Amazonas. Os vampiros tentaram se entreter nos vídeo games, enquanto os lobos já faziam seu jantar. Eles só pensavam em comer.
Eram sete horas da noite quando eu e Emmett resolvemos sair da aconchegante casa de madeira e ir caçar. Emm contentou-se em pegar um jacaré perto do rio, e depois de muita procura, brigou com uma sucuri. Ele não bebeu muito do sangue dela. Cobras são frias e nada saborosas. É claro que ele ficou radiante por conseguir achar um bicho daquele tamanho.
Eu peguei alguns macacos que não estavam na lista de animais em extinção. Eles eram muito ariscos, e foi uma boa corrida atrás deles. Uma pequena onça também entrou nas minhas mortes hoje. Comecei a correr na direção da casa de Zafrina novamente, pois nossa caçada já havia terminado. Senti Emm me seguindo e de repente meu corpo foi lançado para trás.
Minhas costas se chocaram com uma árvore, e a senti quebrando-se logo após. O estalo alto aconteceu quando ela caiu no solo em um baque surdo.
-O que foi isso!? –eu indaguei confusa e assustada. Não prestei atenção em quem me jogou aqui.
Então meu corpo foi empurrado novamente para outra árvore. Ela se quebrou como a outra. Só que desta vez eu escutei as gargalhadas de quem me lançava no ar. Emmett.
-Querido? Cadê você? –perguntei enquanto rolava meus olhos ao redor e não o via. Ele estava brincando de pega-pega?
Então meu corpo estava no ar novamente, sendo empurrado pelo corpo musculoso e altamente forte de Emm. Gargalhávamos até que minhas costas quebraram outra árvore.
-Isso é altamente destrutivo e exótico. Não é gata? –ele piscou para mim e beijou a minha clavícula lentamente enquanto suas mãos percorriam minhas pernas. O conhecido êxtase tomou conta de minha mente.
-Muito exótico. Mas não vimos nada ainda… –murmurei sob seus lábios. Minhas palavras só deram impulso para ele me jogar contra mais três árvores até aterrissarmos na relva macia.
-Realmente Rosie. Nada. –a voz dele soou como convicta. Isso era bom.
***
Fomos para a casa de Zafrina após vermos tudo, e os hóspedes ainda estavam entretidos em vídeo games e conversas.
-Sabe gente… –Jasper começou a falar. –Eu achava que vampiros como os Cullen, Nahuel e Huilen, deviam defender a natureza. Porque já que caçamos a fauna mundial, devíamos preservar as florestas e suas árvores. Mantendo-as INTACTAS.
Várias gargalhadas ecoaram alto na casa. Emmett lançou uma piscadela para Jazz, todo orgulhoso. Eu simplesmente escondi minha cara entre as mãos de vergonha.
-Não destruímos tantas árvores assim… –Emm se defendeu.
-É. – confirmei e fitei o rosto malicioso de meu marido. –Já fizemos coisas piores…
-Muito piores! –Esme confirmou cerrando os olhos. Meus irmãos riram ainda mais ao se lembrarem do episódio na Ilha Esme.
Huilen e Nahuel estavam partindo novamente para a fronteira dos países. Despedimos-nos deles e Fred foi caçar seu primeiro animal com Carlisle e Esme. O resto da família resolveu caçar um pouco depois, quando os lobos resolveram passear pela mata.
Eles chegaram tarde, e quem tinha ficado na casa – eu, Emm, e as vampiras Amazonas – terminamos de aprontar o jantar dos lobos e de Nessie. Eles comeram uma ave recheada, muito trabalhosa de se preparar por sinal. Então foram dormir. Seth com certeza sonhou novamente, porém ninguém o estava perseguindo.
Pelo o que ouvi dos resmungos de Jacob no quarto de hóspedes, Seth murmurava algo como: “Iara!”, ou “Seu corpo me encanta”.
Isso rendeu boas risadas de quem escutava por toda a casa.
Enquanto a madrugada começava, quem não dormia aproveitou para já arrumar as malas. Amanhã bem cedo, antes mesmo de o sol começar a aparecer, voltaríamos para casa.
E Fred teria seu primeiro contato contínuo com os humanos sem ter que caçá-los. Para mim, ele não parecia tão incontrolável. Pelo contrário. Soava muito bem com toda a nova situação dele. Estava feliz por Esme e Carlisle conseguirem aumentar ainda mais os Cullen, e por nossa família ter outro irmão.
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