Depois do sábado divertido e ao mesmo tempo catastrófico que foi o de ontem, resolvi que nesse domingo, o máximo que faria seria tocar piano. Porque eu não poderia mais sair sozinha, graças à visão de Alice.
Nem nessa vida de imortal eu paro de ser perseguida por coisas ruins. Eu devo ser um imã para desastres, assim como Bella era quando humana.
Vi meu reflexo no espelho do quarto, e meu lado fútil ainda se vangloriou pelo tanto que eu era bela. Não que eu não gostasse disso, porque toda mulher ama ser linda. Mas do que adianta ter toda essa beleza, quando os sentimentos mais belos não existem em mim? A beleza foi a culpada por minha vida ter mudado completamente, mas não a culpada por eu ser incompleta e raivosa. Na realidade, os sentimentos ruins que eu guardo, foram os culpados por essa futilidade presa na beleza ter se apoderado de mim.
E por mais consciência que eu tivesse que estava alimentando esses sentimentos de futilidade –que me levaram à ruína- ao me maravilhar no espelho, eu continuava. Porque querendo ou não, a beleza eterna foi praticamente meu único desejo que se realizou completamente. O desejo mais fútil, que veio com os sentimentos ainda piores, foi o que se realizou. Eu acabava me agradecendo por pelo menos isso ter se realizado. Dando ainda mais força á futilidade que acompanhava minha angústia.
Pelo menos um dos meus sonhos do modelo perfeito de vida fútil que eu sonhava em ter, havia acontecido. Idiota. Estúpida.
A beleza refletida pelo espelho me deixava tonta. Como uma garota que parece ser tão linda, é tão vazia por dentro? Tão dependente de sentimentos ridículos do que de outros? Como pude ficar tão egocêntrica graças á esses sentimentos? Tão… fútil.
E por mais consciente de tudo isso, eu não me envergonhava de achar meu reflexo perfeito. Claro. Sou Narcisista o suficiente para que meu discernimento do certo e errado seja calado. A figura bela estampada pelo espelho poderia ser a mais infeliz e a mais dependente de sentimentos horríveis que todos. Mas ainda sim, não deixava de ser uma verdadeira Afrodite por fora. Isso incrivelmente importava muito para mim. Estupidamente importava.
Linda por fora, feia por dentro. Mas ainda perfeita por fora. Isso deveria bastar.
Mas eu sabia que não bastava. E sofria por isso. Sofria por saber que sempre seria feia por dentro. Porque nunca conseguiria modificar isso. Nunca me completaria totalmente.
-Rose minha querida, o que está fazendo? –a voz de Esme soou pela casa e me fez pular de frente para o espelho. Soltei uma risada com minha expressão assustada e saí de frente do meu reflexo.
-Nada, Esme. Simplesmente pensando. –respondi enquanto descia as escadas. –Precisa de algo?
-Não. Obrigada. Só perguntei por que a casa ficou silenciosa de repente. –ela sorriu calorosa e eu retribuí.
Resolvi tocar piano e desfrutar da música que havia criado há algum tempo. Sentei-me na banqueta, e meus dedos começaram a percorrer levemente cada tecla. As notas saíam compassadas e rítmicas, totalmente encaixadas na perfeita melodia que criei.
Era simplesmente incrível como a música fazia sentimentos lindos e escondidos saírem de mim. Eu me sentia um pouco mais completa enquanto tocava. Um pouco menos fútil, ainda bela por fora, porém bela por dentro também. Isso me deixava feliz. E gostaria de ser sempre assim, ao invés de só quando tocava. A música fazia quase o que Emmett fazia comigo. Porém obviamente, em escala menor. Nada vai superar ele.
-Linda música, Rosalie… Fez ela agora? -Esme me perguntou delicadamente, como uma mãe. Eu tinha uma estranha ligação com ela nesse sentido. Ela soava tão receptiva e amável. Na verdade, acho que foi Esme quem me prendeu aos Cullen nos meus primeiros anos nessa vida.
-Obrigada Esme. Já faz algum tempo que a criei. Por que você não toca mais?
-Ora Rose… perdi o jeito! Faz tanto tempo, que não me lembro de uma nota ao menos! –Esme fez uma cara de inocente ao me falar isso. Amanhã eu iria ensinar á ela novamente. Esme tocando piano simplesmente deixa a casa muito mais harmoniosa do que parece, me recordo bem de quando ela tocava.
-Sei. – respondi como se não tivesse preparado uma aula intensa para ela reaprender tudo. Começaria o quanto antes. –Esme, sabe onde Alice está? Não escutei uma palavra dela hoje. O que é bem raro, e não a vi também. E Bella?
-Sei querida, sua irmã está em La Push com Bella. Elas saíram cedo, falaram que iriam levar alguns presentes para Noah. Você já pode imaginar o que Alice comprou para o garotinho… –Esme me respondeu com um olhar cauteloso. Ela sabia que as garotas esqueciam-se de mim às vezes.
-Hmm… Obrigada. –me levantei da banqueta em frente ao piano, e subi novamente para o quarto. Tentei não deixar minha frustração transparecer para minha mãe.
Droga! -tagarelei comigo mesma em pensamento. Devia ter ido com as duas.
Irrita-me um pouco esta atitude das delas. Sei que Bella gosta mais de Alice, por mais que nosso relacionamento esteja muito, muito melhor mesmo do que quando ela era humana. Mas, o que custa me chamar para a programação? Sou tão chata quanto a minha irmã pequena? Alice é muito mais tagarela que eu. E Bella prefere o silêncio!
Além de tudo… É Domingo! E eu sempre crio raízes em dias como este.
Escutei Emmett, Edward e Jasper conversando no andar de baixo. Eles acabaram de chegar da caçada. Com certeza Carlisle estava no escritório. Nessie e Jacob namorando no quintal. E Esme curtindo seu programa de TV.
Só eu estava sem ação no momento. Emmett poderia subir para o quarto.
Pensamentos nada limpos passaram pela minha cabeça enquanto imaginava Emmett aqui. Além de tudo que eu sentia por ele, e além de toda a ajuda e amor incondicional que ele me dava, dependíamos fisicamente demais um do outro. Minha mente desocupada que o diga.
Reviver o que aprendemos sobre o conteúdo de meu livro ilustrado oriental seria interessante. Minha mente vagou para as noites em que nos inspiramos no livro. Um gemido baixo e de repulsa foi dado no andar de baixo.
-Oh não, Rosalie! Por favor! –era Edward me censurando. Segurei uma risada. Desculpe.
-Emmett, por favor. –a voz de Jasper parecia enojada também, porém divertida. –Controle a luxúria que transborda de sua esposa, por gentileza. -Escutei Emm gargalhar e começar a subir as escadas. Eu podia enxergar a cara envergonhada de Esme ao escutar a conversa.
Meu celular começou a vibrar ao meu lado justamente quando Emm apareceu na porta. Pensei em ignorá-lo e partir para os braços de Emmett, com uma súbita onda de desejo me impelindo á derrubar o quarto. Porém, não sei o motivo, uma sensação ruim percorreu minha espinha, tapando todas as outras sensações instantaneamente.
Olhei no visor e o número que chamava era o de Bella. “Deve estar com remorso por ter me deixado aqui sozinha…” pensei no primeiro motivo aparente para Bella me ligar. Mas senti que não era por esta razão, e sim outra. Resolvi me apressar para falar com ela, e apertei o “Atender”.
-Bella? –minha voz saiu tranqüila, e isso era bom. Se não houvesse nada errado, eu iria passar vergonha por tanta preocupação desnecessária.
-Rosalie! Por Deus, todos precisam vir para cá! Rápido! Rosalie, está me escutando!? –a voz dela estava encharcada de pânico. Ed já estava no quarto, e eu ouvia os outros subindo.
-Claro Bella! Calma, por favor! O que aconteceu? -minha voz saía desconcertada e trêmula. Resumindo, uma catástrofe.
-Oh Rose! Liguei para você porque achei que Edward ainda estaria caçando e não atenderia. Ele está aí, não é? –ela começou a soluçar, o que agravou a minha ansiedade. Senti Bella tomando fôlego para dar-me o golpe final. Minhas pernas estremeceram quando ela disse claramente cada palavra.
-Alguém seqüestrou Alice!
Um estrondo vindo de minha porta praticamente me fez gritar de susto. Jasper havia quebrado a maçaneta quando chegou. Seu peito estremecia a cada rosnado.
-Deixe-me falar com Bella, Rosalie. –Ed e Jasper falaram juntos, ambos com as mandíbulas trincadas. Os olhos de Jazz estavam famintos por vingança.
-Rose, a bateria está acabando. Tenho que desligar. Não ligue na casa de Jacob, ninguém está lá. O celular dele e dos lobos está sem sinal agora também. Estamos na mata procurando por ela. Venham rápido.
Então Bella havia desligado a chamada sem nos dar mais notícias, o que fez todos se apressarem para a ida à La Push. Não demoraria muito, dirigindo a mais de 220 quilômetros por hora.
Para desespero nosso nenhum celular realmente nos atendia. Edward praticamente estava tendo uma síncope em saber que Bella corria perigo, que Alice havia sumido, e que Jasper parecia sanguinário.
Emmett deu uma freada brusca com a minha Ferrari, e vi os carros parando no gramado da casa de Jacob. Chegamos aqui em tempo recorde. Todos os lobos estavam do lado de fora, do bando de Sam á Seth e Leah. Suas expressões completamente aflitas.
Bella saiu da casa junto com Billy e Sue. Edward voou para ela, assustado com o rosto horrível que ela mantinha nas expressões. A sensação de culpa a inundava. Mesmo sabendo que ninguém a culparia de nada, Bella se sentia assim. Emily abraçava fortemente Rachel, irmã de Jacob, que chorava compulsivamente.
Edward arregalou os olhos e seu rosto tomou um estranho tom de medo.
Eu, Emmett, Jasper, Carlisle, Esme, Nessie e Jake parecíamos sermos os únicos que não entendiam o que estava acontecendo. Porque Rachel estava tão histérica? Afinal quem sumiu foi Alice. Se Noah tivesse sumido também, eu entenderia perfeitam…
Minha mandíbula se fechou em um estalo. Edward confirmou com a cabeça, olhando na minha direção.
Os dois haviam sumido?
Meus pensamentos que estavam soltos começaram a se encaixar. Entendi porque Bella procurava Alice na floresta. Porque ela havia sumido lá. Alice sumiu porque estava sozinha com Noah na floresta. Passeando, assim como eu desejei. Assim como tinha decidido, até a visão dela acontecer. Desisti de sair sozinha, porém Alice não sabia era que a visão se aplicava a qualquer um que estivesse sozinho nessa mata. E ela foi perseguida. Não aconteceria só comigo, seria com qualquer um dos Cullen que estivesse lá. Qualquer um que tomasse essa decisão primeiro. Seria eu. Como mudei de opinião, foi Alice.
Engoli seco. Um tremor fez minha mão mexer em espasmo. Emmett me firmou no chão.
Entendi também porque Rachel chorava. Pois seu filho recém-nascido se encontrava sozinho e perdido no meio da floresta. Com fome e medo, enquanto quem cuidava dele, desapareceu. Ou então, Noah foi levado junto também.
Entendi que Bella se sentia culpada por ter deixado Alice ir sozinha. Já que ela teve uma visão que nos advertia do perigo anteontem. Porém achamos que isso se aplicava a alguma caçada, e só a mim. Porém erramos feio. Aplicava-se a um passeio pela floresta, e a todos.
-Expliquem-nos tudo. –a voz de Jacob soava imponente, e Bella desabafou.
-Aconteceu isto: Alice pediu permissão a Rachel para passear com Noah, mostrar a natureza à ele. E ela concordou. Ela confia mais em Alice do que em qualquer um, até mesmo eu. Despedi-me de Alice e a vi sumir no bosque, ela me disse que ficaria bem pertinho da casa e voltaria em meia hora. Já se passaram três horas, e ela não voltou. Alice não faria este tipo de brincadeira, ainda mais porque ela está com um bebê!
-Aconteceu mais alguma coisa Bella? Conte-nos tudo meu amor. –Edward implorou para ela.
-Então, enquanto eu e Rachel esperávamos, cerca de uma hora após a saída de Alice, escutei um choro abafado que logo passou. Pensei que fosse Alice voltando com Noah, senti-me até mais aliviada. Mas logo ouvi algum animal trotando a uma boa distância daqui, eu não tenho certeza, podiam ser passos também. Os baques eram surdos demais. Era uma corrida rápida, na qual não daria para diferenciar se era animal ou não. Fiquei preocupada demais, já fazia uma hora e Alice não retornava. Fora que o que escutei não me acalmou. Liguei para Alice, por mais difícil que fosse o sinal. Na primeira chamada, ninguém atendeu. Mas na segunda… Deus!
-Bella, por favor! -se lágrimas saíssem de meus olhos, estariam inundando meu rosto agora. Emmett havia virado uma estátua de preocupação do meu lado. Jasper rosnava incontrolavelmente.
-Na segunda… –Bella continuou. -Havia a seguinte mensagem de voz: “Tentar seguir os rastros agora, seria bom.” A voz era de um homem, mas não é parecida com nenhuma que eu conheça! E se na segunda chamada ele deixou a mensagem, significa que na primeira ele já estava com Alice. Ainda mais depois do aviso ameaçador. Ninguém retornou do celular dela. Sem chamada nenhuma no meu celular vinda de Alice. Liguei para vocês, e enquanto estavam a caminho, ela não retornou para cá com Noah também. Ela sumiu! Não existe outra explicação! E o pior é que não sabemos se o seqüestrador levou Noah também! Temos quase certeza disso, pois não estamos escutando o coração ou choro dele. Deus!
-Acalme-se Bella. –Carlisle pediu. -Como ninguém aqui achou pista deles enquanto procuravam na floresta perto da casa, iremos mais longe dessa vez, já que nos esperaram para isso. Temos que ter certeza se a pessoa realmente levou Noah, e para onde carregou Alice. –ele disse decidido.
Todos concordaram, e seguimos para o meio da floresta, exceto os humanos que ficaram na casa de Jacob. O bando de Sam seguiu liderando nossa busca. Tentamos identificar vários cheiros presentes no local, mas nenhum nos levava aos rastros de Alice, muito menos aos de Noah. Na verdade, esses cheiros não eram suspeitos, e sim de humanos e animais de La Push.
Não conseguíamos escutar os batimentos cardíacos do bebê, o que nos levou a crer que o levaram junto com Alice. Eu estava posicionada ao lado de Emmett e Jacob quando senti um odor diferente. Vi que Nessie também sentiu, e ela me seguiu até o local onde o cheiro era mais forte.
A base de uma árvore, e de lá, seguia um caminho mais para dentro da mata. Era o tipo de perfume que eu nunca desejaria possuir. Como era repugnante sentir aquilo! Jacob disse para Renesmee seguir Emmett, enquanto ele me ajudaria com o odor. Ela aceitou, e me deixou a sós com o seu namorado enquanto seguia Edward, Jasper e Emm.
Inalei mais profundamente o odor. Reconhecimento imediato me atingiu como uma chicotada. Fiquei paralisada no lugar.
Como não notei antes? Estúpida! -repeti para mim cinco vezes.
Esse cheiro era o mesmo que senti meses atrás, após a corrida de carro que Alice ganhou. Não só eu havia sentido, mas todos os Cullen, Jacob e Leah. Era o mesmo odor nojento que tinha sentido após verificar o estrondo vindo da mata naquele dia. É claro que tudo isso tinha uma ligação! Estávamos sendo vigiados por um tempo, e eu sentia isso. Eu sempre senti isso, mas ignorava a sensação de insegurança. Estúpida!
Agora estavam explicados os arrepios e sensações ruins constantes que me perseguiam, e a minha convicção de que alguém nos vigiava. Como fui tão tola?! Como ninguém mais percebeu? Como tal cheiro sumia e reaparecia de repente? Que estranho poder esse seqüestrador tinha? Como Alice não viu que já estávamos sendo vigiados, ou Edward não sentiu a mente que nos seguia!?
O que nos seguia?
Minha vontade era que Jacob me devorasse aqui mesmo. Poupando-me da minha própria estupidez. Eu sabia que Edward teria lido minha mente, e logo estaria aqui com os outros para nos ajudar á achar mais rastros. Jacob parecia tão revoltado quanto eu ao notar o cheiro conhecido. Bella quando procurou pela floresta junto com os lobos de Sam, Leah e Seth não havia vindo tão longe, por isso não captou o rastro antes. Ou o rastro não havia sido deixado antes, e foi largado aqui propositalmente. Misterioso demais.
Alguma coisa me fez seguir o rastro mais de perto, a curiosidade e sensação de que havia mais me dominou. Enquanto o resto do pessoal não chegava, me enfiei um pouco mais na mata. Jacob permaneceu onde achamos o cheiro. Era como se eu fosse atraída para a floresta mais densa, como se algo que pudesse explicar alguma coisa me chamasse.
Dei um passo longo e rápido para a mata densa na minha frente, e me arrependi por inteiro. Senti como se dois milhões de fios elétricos estivessem me eletrocutando agora. Tudo isso uma reação de susto e pânico que me atingiu. Uma bolha de ar encheu minha garganta, sufocando-me. Agora sim eu estava paralisada de verdade.
Meus pensamentos se prenderam naquela imagem horrível diante de mim. Senti Jacob se aproximar, para me seguir. Ele deveria ter achado estranho tanto silêncio de minha parte, sozinha na mata. Quis gritar um não, porém nada saía de minha garganta em choque.
O corpo quente de Jacob parou subitamente quando chegou ao meu lado. Em um baque surdo, ele desabou de joelhos. Jake tremia convulsivamente, e vi que lágrimas cobriam toda sua face avermelhada.
Fitei novamente o corpo estirado na nossa frente. Pisquei doentiamente, não querendo crer na atrocidade que via. Mas era verdade. Os pequenos braços do corpo estavam desconfigurados, com enormes marcas de unhadas. Os olhos ainda abertos, mas sem vida. O coração sem pulsação. Da boca um fio de sangue escorria. A face, marcada por hematomas. Era horrível. Era um filme de terror encontrar essa cena. Ao lado de sua cabeça, uma imperfeição aparente, e por baixo dela, uma poça de sangue estava formada.
Eu estava vivendo um pesadelo. Isso era horrível demais. Monstruoso demais.
Não consegui acreditar que o vi vivo ontem. Que o vi nascer. O garotinho de pele bronzeada se foi. De maneira cruel. Fitei os olhinhos novamente. Ainda eram os mesmos de quando o vi pela primeira vez. Não podia acreditar! Ontem estávamos comemorando seu nascimento, e hoje, chocados com sua morte.
Ele havia acabado de nascer! Quem cometeu isso!? -agora a fúria gritava em mim.
Escutei passos e alguns trotes vindo na minha direção e da de Jacob. Não queria que mais ninguém presenciasse isso. Os passos haviam parado, e me dei conta que todos já estavam do meu lado. Vendo a cena.
Um uivo de dor deu ecos pela floresta. E o uivo se transformou num grito raivoso humano. Era Paul. Só pude ver ele se encolher ao lado de Jacob, tremendo de raiva e nu, quase se transformando em um lobo novamente. Ele repetia inúmeras vezes o grito, chorando totalmente incrédulo do acontecimento. Ele havia acabado de ganhar Noah. Acho que podia imaginar sua dor. A voz de trovão de Paul rasgou pelas árvores novamente enquanto ele se arrastava para perto do pequeno corpo sem vida. Embrulhou meu estômago ver isso. Era uma cena forte demais. Horrível demais. Emmett escondeu minha cabeça em seu peito enquanto tentava fechar meus ouvidos.
“NOAH! MEU NOAH! MEU FILHO! POR QUÊ? NOOOAH!”-então os gritos foram sumindo conforme Emm me arrastava para longe, e se arrastava. E enquanto o uivo tomava a floresta novamente. Podia sentir todos tentando sair desesperadamente daquela carnificina enquanto Paul estava incontrolável.
***
O horror que eu sentia se abriu em uma fenda profunda, e eu estava caindo nela. Eu me apoiava em Emmett, e sentia que o espírito aventureiro e brigão dele havia se modificado no mesmo espírito em que eu estava. Um humor completamente transtornado e doloroso.
Para ajudar, o torpor tomou conta de meus neurônios enquanto eu via Rachel desmaiar com a notícia. Quando Paul retornou para a casa de Jacob, onde todos nós estávamos agora, estava inerte, isolado em um canto, observando Carlisle reanimar Rachel. Billy, que estava radiante com o primeiro neto, simplesmente se calou. E do outro lado, Jacob calculava atenciosamente como seria a vingança pela morte de seu primeiro sobrinho.
O clima estava tenso, triste.
O silêncio que deveria reconfortar só fazia ainda pior a situação.
Emmett se apoiou contra mim, e pude jurar que ele quase cambaleou para o lado. Ver ele desolado não é algo muito comum.
Além da morte horrível que havia acontecido, Alice estava desaparecida.
Todos estavam espantados. Desde a última vinda dos Volturi para cá, há sete anos, nenhum acontecimento quanto este foi tão perturbador. Sabíamos que estávamos lidando com algo desconhecido. E esse fato já era ameaça o suficiente.
Onde Alice está? –minha mente gritou pela milionésima vez. Estava ficando louca pelas várias vozes em pânico que ouvia na minha cabeça. Meu cérebro latejava de dor.
E se… Se… Mataram ela também!? –a vozinha irritante gritou de novo. Se eu batesse minha cabeça na parede, isso pararia?
Precisamos encontrar alguma pista. –a outra voz um pouco mais sensata alertou. Estava me sentindo uma esquizofrênica.
-Sim, Rosalie. Vamos. –Edward pulou do lado de Bella decidido após ver minha mente, os olhos assumiram uma raiva selvagem. –Temos que achar uma solução. O passado não volta. Eu lamento. Mas agora é Alice quem corre perigo e não podemos ficar parados.
-Não ficaremos. –Jasper rosnou com seu rosto transformado. Cheguei a ter medo dele. Normalmente, ele não assumia essas expressões macabras e sanguinárias de um antigo soldado de Maria.
Ouvi um uivo intenso vindo da mata fechada, onde encontramos Noah morto. Era Seth, que havia resolvido tentar achar mais rastros, depois que vimos a cena e desistimos de procurar mais. Ele foi o único que permaneceu por lá. Tentando.
Um grupo de lobos, com Jake no comando, e os Cullen, foram até o local em que o uivo foi dado.
Enquanto eu corria seguindo eles, e Emmett ainda se mantinha ao meu lado, a estúpida cena que imaginei há algum tempo fez sentido. Talvez, ao me fantasiar em um enterro, eu não estivesse tão errada.
Fitei a forma quadrúpede de Seth quando todos chegaram ao local, e seus olhos apontavam para as patas enormes dele. Jacob rosnou em sua forma humana, como se ordenasse a Seth alguma coisa. E em um súbito movimento, Seth levantou a pata direita para nos mostrar alguns tecidos rasgados.
Meus olhos se arregalaram quando reconheci um pedaço de pano. Era parte do colete de Alice. Esme entrou em pânico, e Bella se juntou à ela instantaneamente. As duas ficaram grudadas, ambas horrorizadas com a pista. Prendi minha respiração para não gritar de pavor. Pude ver Jasper virar uma estátua ao lado de Carlisle.
Meus pés se moveram para frente, e logo dei passos o suficiente para ficar cara a cara com Seth na forma animal. Não estava raciocinando direito, só pude sentir minhas pernas se flexionando em um agachamento. Minhas mãos apanharam o tecido da roupa de Alice, e o cheiro de minha irmã estava ali.
Jasper se agachou ao meu lado. Os olhos demoníacos.
Mas ao reparar mais embaixo das patas gigantes de Seth, notei que não havia só a roupa de Alice. Pedaços de moletom e jeans estavam por toda parte, e o odor nojento estava impregnado nos tecidos.
-Desgraçado! –gritei sem dar conta de meu ato. Carlisle apoiou confortavelmente suas mãos nos meus ombros.
-Rosalie… temos que analisar todas as pistas existentes. Se você destruí-las, não terá grande ajuda. –olhei para minhas unhas, que estavam arranhando o jeans fedorento. Jasper continuava a observar tudo com uma raiva intensa. Ele tinha a feição de um soldado sedento por guerra.
-Carlisle, eu notei uma coisa neste moletom… –virei minha cabeça e vi Seth, em sua forma humana. Ele estava totalmente despreocupado e desinibido para alguém que está nu na frente de tantas pessoas.
Mesmo não sendo o momento, fiquei constrangida com seu corpo musculoso tão próximo do meu. Jasper fechou a cara. Se fosse humana, estaria parecendo um pimentão agora.
-Oww, Seth! Você não aprendeu nossas regras de boas maneiras até hoje, garoto? Nunca volte a sua forma humana perto das pessoas, afinal, você estará nu! Vá se vestir logo, ninguém quer ficar olhando para isso daí! -Jacob apontou seu queixo sugestivamente em direção as partes baixas de Seth. O mau humor estampado na sua voz.
O garoto corou imediatamente, e correu para a mata, onde suas roupas deveriam estar. Edward, que já sabia o que Seth iria falar, tomou o lugar do menino.
-Carlisle, ele iria dizer que este moletom contém uma escrita na parte de trás. –ele falou com curiosidade. -Provavelmente isso deveria ser uma jaqueta. Vire-a.
As mãos de meu pai foram rápidas, e ele virou o pedaço de pano. Todos nós lemos algumas letras que não formavam palavra alguma. Neste momento peguei outro pedaço de moletom no chão, e em suas costas havia mais algumas letras. Começamos a juntar o quebra cabeça, até que se formaram três palavras.
Cabrini High School.
O notebook estava no meu carro, e Bella correu até lá para pegá-lo. Ela digitou rapidamente o nome da escola secundária, e as informações mais importantes que começaram a aparecerem no site de pesquisa chamaram nossa atenção.
A escola localiza-se na cidade de Allen Park. O colégio dirige campeonatos de futebol americano. Os campeonatos eram feitos neste mês, e a cidade ficava lotada de pessoas que eram visitantes. Possíveis estranhos. Ou os estudantes dessa escola conseguiam fugir dela mais facilmente nesses períodos. E nesse tempo livre seqüestravam pessoas. Muitas teorias. Tudo isso também poderia não passar de um truque para nos levar ao lugar errado.
-Vamos para lá. Ninguém vai à aula amanhã. –Carlisle ordenou. -Peguem os carros agora. Todos os Cullen exceto Esme e Emmett vão. Eles ficam aqui em La Push junto com o bando de Sam, caso o seqüestrador retorne. Dos lobos, Jacob, Leah, Embry e Seth irão conosco. Precisamos da ajuda do bando de Jake.
Reprimi um gemido de negação. Eu não queria me afastar de Emmett. Não nessa situação.
Esme entendeu perfeitamente os conselhos de Carlisle, despedindo-se dele esperançosa. Emmett agiu com relutância quanto a isso. Já que ele queria brigar, e queria se manter próximo de mim. Acabou aceitando com a promessa de nossa volta. O bando de Jacob aceitou a proposta de Carlisle sem reclamar.
Despedi-me de Emmett com um abraço apertado demais. Senti que ele estava preocupado. Beijei-o intensamente, relutante em deixar parte de meu ser aqui. Preocupada com ele.
-Eu te amo. –murmurei antes de ir. Ele sorriu e separou nossos dedos, afagando minha bochecha.
-Cuide-se. Por favor. Eu te amo muito. –seus lábios roçaram os meus novamente antes de eu partir para minha Ferrari.
Os lobos que iam a Allen Park conosco primeiro passaram em casa para pegarem algumas roupas, já que nossa volta era sem previsão. Jacob ainda tinha algumas peças na casa de Billy, e acabou por aproveitá-las. Os Cullen iriam ficar só com a do corpo mesmo, já que ir para Seattle primeiro estava fora de cogitação. Podíamos comprar algumas pelo caminho se precisássemos.
Logo estávamos enfiados em uma estrada. Eram duas horas da tarde em ponto quando saímos da reserva de La Push e pegamos a rodovia sentido Allen Park.
Ninguém dirigiu por muito tempo, pois o velocímetro marcava 220 km a todo o momento, e logo chegamos ao nosso destino. Na entrada da cidadezinha notei a placa: Bem vindo à Allen Park. E logo abaixo: Estado de Michigan, Condado de Wayne. População: 27.616 habitantes.
-Pequena não é? -Jasper me pegou desprevenida, e assustei com a sua voz no silêncio. Sempre odiei que Jasper fosse passageiro no meu carro, ele nunca falava uma palavra durante a viagem. E quando falava me assustava.
-Sim. Mas consegue ser maior que Forks. –minha resposta foi breve e irritada. Minha atenção foi cortada e levada a um grupo de animadoras de torcida que caminhava para um minúsculo estádio, visível de onde minha Ferrari estava parada.
-Podemos achar alguma pista lá dentro, Rose. Talvez os jogos sejam da escola que pesquisamos. Vamos até o estádio, e iremos apurar se algum cheiro é igual ao que encontramos na mata. –Jasper pediu.
-É. Talvez achemos algo interessante por lá. Se não, teremos que checar na própria escola que o moletom indicou. –respondi enquanto dirigia para o estádio.
Estacionei o carro na primeira vaga que vi, e os outros carros da família com os lobos pararam os seus carros uma fileira após a minha. Entramos no estádio e sentamos juntos na arquibancada. Todos estavam alerta. Observando atentamente cada pessoa ao nosso redor, inalando odor por odor. Mas nada nos pareceu igual ao que procurávamos.
O jogo estava entediante, o time da casa perdia. E até agora não encontramos o que queríamos achar. Edward nos disse que a pessoa não deveria estar aqui, que poderia estar no centro da cidade, ou talvez ela nem morasse aqui realmente, que poderia ser um truque.
Todos concordaram com ele, e decidimos buscar o procurado nos bairros de Allen Park. Até achar a maldita escola descrita no moletom. E o maldito dono da roupa. Estávamos nos levantando da arquibancada após a decisão de ir embora, quando o técnico fez uma alteração no time da casa, e isso nos fez parar. Ele chamou um homem que estava completamente isolado dos outros colegas, tão isolado que não o vimos. O homem fez um sinal positivo com a cabeça, sem abrir a boca para falar uma palavra.
Edward e Jasper viraram seus rostos para encará-lo, e minha atenção ficou presa à ele.
Era o tipo de pessoa, que quando apelidada, espancaria quem inventou tal nome. Seu rosto era quadrado, os olhos de um preto intenso, não pareciam possuir íris, somente a pupila dilatada. O cabelo era negro e penteado bagunçadamente, como o de Edward. Sua pele morena reluzia em um tom amarelado. O que mais chamava a atenção, porém, eram os músculos, sua feição, e a brutalidade. E que brutalidade.
Nos primeiros trinta segundos de jogo dele, o homem conseguiu fazer uma falta grave, e a vítima teve três dedos deslocados em uma queda. O juiz deixou o cara prosseguir no jogo por medo de apanhar também. Só podia ser isso. E além de tudo, nos próximos minutos, a incrível habilidade dele o fez virar o jogo, e o time da casa ganhava graças à ele.
-Ele sente um rancor intenso. E muita culpa. -Jasper nos disse com um sorriso sádico no rosto.
Foi dado o apito final e as pessoas começaram a ir embora. Os torcedores de Allen Park triunfantes da virada sensacional que ocorreu. Já os visitantes cabisbaixos e odiosos do estranho rapaz que virou a pontuação. O homem que observávamos se sentou novamente no banco, e nos fitou grosseiramente. Largando o olhar de soslaio após uma estranha fúria passar por seus olhos.
Carlisle me olhou desconfiado. Meus irmãos se paralisaram na arquibancada enquanto os lobos lançavam olhares confusos entre si.
Esse rapaz não era humano.
Em uma onda repentina de fúria quando a imagem de Noah morto e a de uma Alice seqüestrada passaram pela minha cabeça, corri até o cara sem hesitar. Pude sentir Jasper me imitando, com certeza ele estava muito mais possesso que eu, e controlando-se para não voar no pescoço de ninguém. Paramos a três metros dele.
O estranho entrou em um estado doentio, ficando de pé em um salto e nos encarando maldosamente, enquanto lançava outro olhar para onde meus outros irmãos e lobos estavam. A arquibancada poderia desabar se dependesse da vontade do rapaz. Um humano, por mais desequilibrado, não faria isso. Não teria esse olhar medonho. Um grito mais grave que o som de um trovão saiu do rapaz, e me fez recuar um passo enquanto Jasper se colocava na minha frente.
-O que vocês querem? Fiquem longe de mim! –sua voz era demasiadamente grossa para a idade que aparentava ter. Suas expressões eram muito selvagens até mesmo para um vampiro. Que diabos isso era!?
Avancei um passo novamente, ficando ao lado de Jasper. Os Hale não são intimidados facilmente. Por coincidência, um forte vento adentrou das altas vidraças do ginásio. A certeza atingiu Jasper e eu.
Era o cheiro que estávamos procurando. O cheiro repulsivo, como o de carniça. Não sabia que criatura mítica poderia possuir esse odor. Era pior que tudo que já senti.
Vi que o estranho sentiu meu cheiro e o de Jasper, e reconheceu-nos como inimigos imediatamente, assim como o resto que nos acompanhava da arquibancada. Ele franziu o nariz e sorriu diabolicamente.
-Ah. –foi tudo o que ele falou antes de sorrir de novo. Jasper se segurou para não atacá-lo, mas incrivelmente, fiquei mais descontrolada que ele. Eu odiava que pessoas fossem sarcásticas comigo numa situação dessas. Ainda mais esse estúpido que estava na minha frente. Aquela estranha fúria sempre presente em mim me dominou.
Só podia ser ele quem cometeu aquelas atrocidades. Era o mesmo cheiro. E Bella parecia ter reconhecido aquela voz. Era a voz da mensagem no celular de Alice.
Olhar para o seqüestrador de minha irmã, e assassino de Noah, me fez querer matá-lo ali mesmo. Escutei os lobos e minha família correndo até o meu lado e o de Jasper. Chequei se ainda havia humanos ao redor, e não vi nenhum.
Corri subitamente na direção do homem como um raio, uni todas as minhas forças em minhas mãos e virei seu rosto com uma bofetada. O medo só me encheu após o ato.
-Onde está Alice? Fale-me! -gritei com os dentes cerrados. Dei-lhe outra bofetada. –Seu nojento! –nem eu mesma sabia de onde tanta raiva e coragem havia surgido de mim. O arrependimento veio logo após. Sentia minha família me fitar boquiaberta nas minhas costas.
Neste mesmo segundo senti alguém se aproximando atrás de mim, para me ajudar. E as terminações nervosas do homem na minha frente explodiram. Seu olho ficou por incrível que pareça mais negro. Seu corpo levou um choque de tremores, e ele me fitou, ansiando por minha morte e a de quem me cercasse.
Tive certeza disto quando ele levantou sua mão na direção de meu pescoço.
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